Os Gato Fedorento e a fronteira do jornalismo

Gatos com Rodrigo GCFoi com surpresa que vi o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC) no papel de entertainer no programa que marcou o regresso dos Gato Fedorento,  esta sexta-feira, na SIC.

RGC é um dos rostos do canal principal da SIC e é também um membro da direcção de informação do canal. Os telespectadores da SIC identificam-no como um jornalista que lhes dá notícias num registo de seriedade que lhe confere credibilidade.

Ao prestar-se a participar como jornalista num programa de humor, independentemente da qualidade e do prestígio do programa e dos seus actores, Rodrigo quebrou a fronteira que separa o jornalismo da ficção e tornou-se naquele momento também ele um humorista representando o seu verdadeiro papel .

Bem sei que é cada vez mais difícil identificar, na televisão, uma clara distribuição de papéis com géneros identificáveis – informar, educar, distrair. Conviria mesmo  perceber o que permitiu transformar o equilíbrio do contrato  informação/jornalismo,  num contrato sedução/divertimento/captação de audiências.

O que é perturbador na participação de RGC no programa dos Gato Fedorento é  o facto de ter assumido um papel na pantomina. De facto, RGC  brincou aos jornalistas entrevistando os humoristas como se a conversa fosse “a sério”.  Rodrigo alimentou o diálogo como se estivesse  no Jornal da Noite da SIC.

Pouco importa para o caso que o tema da “entrevista” fosse a contratação de um “jagunço” como “a solução” (título do programa) para resolver a crise e punir a “cambada de gatunos” (leia-se, o governo) ou dar “um tiro” no primeiro-ministro  ou no seu “vice”. A questão da fronteira entre jornalismo e ficção permaneceria qualquer que fosse o tema da “entrevista” que Rodrigo representou com entrega.

Se o contrato do jornalista é com a procura da verdade e com os factos, que sentido tem brincar com o seu papel e o seu estatuto? Quando RGC voltar a falar-nos como jornalista “a sério” na sua cadeira de pivot do Jornal das Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar.

A credibilidade é a fonte da legitimidade de um  jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido.

 

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33 respostas a Os Gato Fedorento e a fronteira do jornalismo

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  3. António diz:

    Alguns falam e não fazem nada, outros sim. À que bater palmas ás iniciativas e não critica-las, sejam elas boas ou más. Muita gente fica intimidada com o que se faz de cómico em Portugal, agora digam. Este governo que tudo faz para tirar e nada dar é o que, o que merece. Hipocrisia é ser roubado e gostar. Tenho pena que muita gente goste de ser roubada pelo governo. Muito bem aos Gato Fedorento e Rodrigo Guedes de Carvalho.

  4. O Joao Barbosa comenta com aproposito; e dá para pensar em todas as situações em que (armas destruição massiça, eleição dos 1ºministrosingleses, Libia) em que não vimos nem vemos tanto empenho em criticar os pulhas que travestidos de jornalistas ajudam a assassinar(Iraque 400 mil) gente como nós que só tem o azar de viver num mundo em que nos indignamos com as moscas mas nao com a trampa.E nunca é demais alertar para o asqueroso que é avançar com acusações até ofensivas contra quem faz o favor de ter opinião diferente da nossa. Sejam gente e não bichos.

  5. Maria Puga diz:

    Sinceramente nao vejo o porque de tanto alarido. Toda a gente sabe que “os gatos” trabalham assim… Toda a gente sabe diferenciar a ficção da DURA REALIDADE que é este pais…
    Toda a gente sabe que enquanto estes senhores/senhoras falam sobre isto dispersão as atenções sobre o que mais importante à para resolver em Portugal. DEIXEM-SE DE TRETAS e trabalhem… respondam ao herário público quem somos NÓS TODOS QUE PAGAMOS… Tristeza de gente esta….

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  7. Anacleto Marques diz:

    É assim mesmo: gosto de ler todos estes que se deram ao trabalho de defender (não é que precise!) RGC. Há aqui um sentido de urgência na defesa da liberdade, de onde sai a criatividade e renovação de uma sociedade!

  8. carlos ferreira diz:

    foi um excelente anúncio da tmn

  9. V. Faria diz:

    Concordo com alguns comentários e , naturalmente , discordo de outros . Ou seja , nem tanto contra o RGC , nem tanto a favor dos Gatos . O que me foi dado vêr foi uma peça humoristica mal conseguida, quer pela escolha infeliz do “entrevistador” que não tem geito para o papel ( o que não quer dizer que não fosse bem desempenhado por outro jornalista, sem que saissem minimamente maculados os princípios do jornalismo ! Até podia ser giro ! ) , quer pela prestação dos Gatos que não conseguiram sair do lugar comum . De resto, a prestação destes assumiu um pouco ( embora com menos subtileza ) o estilo marcado pelo lieder do grupo nas intervenções do Governo Sombra . Aquilo que acho é que os MEOGATOS, tem que rapidamente repensar o que pretem , de facto, fazer do seu projecto, que foi das coisas mais saudáveis e mais divertidas ( inteligentes, inovadoras , and so, and so … ) que aconteceram nos ultimos anos neo humor português . O que é chato , é ficarmos com àgua na boca cada vez que os Gato anunciam o regresso e termos que engolir a saliva no fim do show ! Agora dizer que o programa não resultou só por causa do “entrevistador”, parece-me injusto . Menos ainda, acho pertinentes as divagações sobre questões deontologicas ou sobre princípios de credibilidade jornalistica, pelo mero facto de um profissional da àrea intervir num programa humoristico , fazendo ” dele próprio” . Não é facil fazer de si mesmo , mas no caso, o que faltou ao RGC , foi o talento e o humor que lhe permitissem, pelo menos, manter o siso . E apenas isso !

    ( V.Faria )

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  11. Marco diz:

    Também os membros do governo era suposto serem credíveis e vai-se a ver e são uns vigaristas.

  12. Gaspar Ferreira diz:

    Vi o programa e confesso que considero a peça humorística das menos talentosas que estes artistas nos têm oferecido. Quanto à participação do RGC neste registo, não me parece que, de forma alguma, altere a sua eventual qualidade de jornalista. Aprecio em qualquer pessoa a sua abertura para um momento de humor com qualidade (não digo que seja o caso). Além disto creio
    que os portugueses entenderam que o dito estava a participar nesta peça. O que me preocupa de facto é o “jornalismo” pelas audiências, o sensacionalismo e os jornalistas a soldo.

  13. Manel Weinmann Jesus do Crucifixo diz:

    O jornalismo em Portugal já não é sério, quer-se acabar com um dos poucos que ainda o é!

  14. Joaquim da Tasca diz:

    Não vi a entrevista conduzida por RGC, mas parece-me uma ideia interessante que um jornalista possa também brincar, criticar e ter um papel activo na sociedade. Percebo que certas pessoas se incomodem com isso e prefiram ler certos jornais mais informativos e cultos como por exemplo o Correio da Manhã, mas isso é lá com elas. Acho que a solução para este país é a diversidade e não a mordaça que há em torno do jornalismo em Portugal. A solução só virá com a tolerância e os bons valores e não com a mesquinhice contra as pessoas que querem fazer algo diferente. Viva a pluralidade, viva a diferença! Há problemas muito mais graves com o jornalismo em Portugal, aliás atrevo-me a dizer que parte da responsabilidade do nosso problema vem do pobre jornalismo que aqui se faz e com a conivência entre jornalistas e poder. Fala sério!

  15. são josé lapa diz:

    …o “problema” para si Estrela Serrano é mesmo A ESSÊNCIA da entrevista, se esta fosse uma simples joke corriqueira sem este “estilete contra o sr de massamá” a srª provavelmente nem abriria boca…assim a defesa deontológica da sua profissão(?) e ataque ao seu colega escorregou para o mais primário :insinuação monetária…MUITO FEIO

  16. Luis Martins diz:

    A Estrela Serrano e o Joaquim Vieira, deveriam era ter um pouco de vergonha na cara! O Spot jornalistico é optimo, é satirico e muito inteligente! O Rodrigo Guedes de Carvalho, foi também bastante divertido! Quanto ao resto na minha opinião um tiro nas miudezas e um banano, sabe a pouco! O mem agradecimento aos gato fedorento e também ao Rodrigo por esta excelente peça!

  17. Acho uma piada… estão incomodados com algo que é sinalizado como humor, mas não com a perda de credibilidade crescente da profissão quando falam a sério. Não-assuntos.
    Os meios de comunicação social são empresas disfarçadas de serviço público, que servem interesses económicos e políticos e vêm agora atirar areia para os olhos com esta polémica artificial? Deixem o homem em paz e de ser mais papistas que o papa.

  18. Português diz:

    Quem tiver as ditas dúvidas sobre se o RGC estará a representar o papel de jornalista sério como sugeriu a Estrela Serrano, bastará ver a grelha da programação. Jornal da Noite é um programa e A Solução é outro diferente. Se ele fez bem ou mal em participar no dito programa não sei, mas não será isso que irá afectar a credibilidade de um grande jornalista com certeza, só vem mostrar a versatilidade profissional do próprio. Não vejo porque não possa um jornalista ser também humorista em alturas diferentes. Como sempre, há o lado conservador e o lado liberal da perspectiva.

  19. felizberto abelha diz:

    preocupe-se com o que realmente importa , tem um monte de politicos que mentem descaradamente e sempre representando como se estivessem a dizer a verdade… e voçê vem criticar uma sátira?! se não sabe distinguir uma brincadeira de uma noticia , então a senhora não deveria ocupar a função que ocupa , pois deve ser requisito minimo para essa função saber faze-lo. e lá por uma pessoa ser jornalista não quer dizer que não possa brincar , acima de tudo trata-se de um ser humano e como tal pode brincar e ser sério conforme queira. não seja tão critica e preocupe-se com o que realmente interessa , com essa cambada de gatunos que mentem descaradamente e sem estarem a brincar!

  20. Júlio Rolando Coelho diz:

    Estamos todos de acordo com a afirmação de que a grande pedra de toque do jornalismo dev ser a credibilidade. Contudo, não creio que a falta de (ou a perda da) credibilidade passe pelo facrto de um jornalista participar num programa humorístico (tal como, em tempos, também houve um outro jornalista que participou num anúncio publicitário).
    A falta de credibilidade vem, sobretudo, da falta de isenção, do despudor, da manipulação descarada; e aí, temos exemplos de sobra, mesmo em jornais ditos de referência, de jornalistas que são a voz do dono, que se mostram ao serviço de interesses bem definidos, que não hesitam em manipular os factos, fazer interpretações, no mínimo fantasiosas (veja-se o caso das interpretações dos números do Pisa e da realidade que este estudo demonstrou do caso sueco).
    Isso sim, isso é que descredibiliza, que leva o pessoal a estar farto de de certo “jornalismo”.

  21. António Manuel diz:

    Duas visões, duas velocidades : rapidez em criticar RGC pela sua participação neste programa (visão muito discutível). Extrema lentidão na pronúncia solicitada pela Autoridade da Concorrência à ERC sobre a Operação Triângulo, isso sim verdadeiramente importante para todos nós. Tanta lentidão que o prazo se esgotou abrindo a porta para a aprovação tácita da operação. Centremos as nossas atenções no essencial e deixemos os fait-divers.

  22. ZeMiguel diz:

    Só em portugal para levar tudo a sério….fucking velhos do restelo só vivem do extremamente sério e não levam as coisas com humor…já que somos sodomizados pelo governo todos os dias ao menos que esbocemos uns sorrisos para ir esquecendo esta completa bodega. Pão e circo já dizia alguém há muitos, muitos anos atrás…

  23. qualquer pessoa de bom senso vê a clara diferença entre jornalismo e entretenimento. O profissionalismo de RGC não sai, sequer, beliscado, por mais que se cheguem à frente os defensores de pseudoredutos.

  24. Fiipe Ribeiro diz:

    A “jornalista” Estrela Serrano fala do alto do seu blogue para o Rodrigues Guedes de Carvalho que apresenta o telejornal em canal aberto para todo o país e o mundo…cheira-me a dor de algo……em suma, quando os jornalistas participam em publicidades, novelas ou escrevem livros de ficção, por si, está tudo bem, mas alto e pára tudo quando um jornalista decide brincar e de forma bem acertada com um “governo” e um representante disso. Você deve ter sido a única pessoa do país (ah e um tal de Joaquim Vieira, devo confessar que também não sei quem é, mas também deve ter um blogue) a achar que pode confundir as pessoas ver o RGD e os GF juntos, podendo alguém achar que estão a falar a sério?! Mas os GF alguma vez falaram a sério? Quem me dera que fosse a sério e viesse mesmo o Steven Seagal dar um enxerto de porrada ao Passos Coelho e a todos os parasitas sugadores do erário público que ocupam e não saem dos cargos governativos bem como da assembleia que pertence ao povo e não a esses parasitas…
    Enfim, “jornalista” Estrela Serrano, não a vi tão indignada quando o “governo” roubou e continua a roubar os nossos reformados, os nossos trabalhadores, ou quando este “governo” criou o maior fluxo de emigração alguma vez visto e emigração do mais alto nível, nunca houve tantos portugueses com formação superior a abandonarem o país, mas por si, isso está tudo bem, agora o que está mal mesmo, mas mesmo, é o Rodrigo Guedes de Carvalho fazer um sketch com os Gato Fedorento em prime time no canal onde trabalha.
    Com os melhores cumprimentos,
    F.R.

    P.S. “quando um jornalista usa o seu estatuto para macaquear a sua profissão perde credibilidade” – Estrela Serrano, ahahahahahahahahahahaah, não leve este assunto tão a sério, existem coisas bem mais graves para se indignar, experimente dedicar-se a elas.

  25. Antonio Camões diz:

    O povo sabe quando é a brincar e às vezes exige-se brincar como se fosse a sério.

  26. Pedro diz:

    Nem nunca percebi porque apelidam de jornalistas aos papagaios que lêem eloquentemente o tele-ponto. Quanto à credibilidade, tudo não passa de uma cortina de fumo chamada marketing e propaganda que serve os interesses instalados do costume, ou seja, os gangsters da banca e seus lacaios que nos governam.
    É “o triunfo dos porcos”, estamos de parabéns.

  27. Rui diz:

    Então jornalista que representam jornalismo em novelas, filmes ou humorismo perdem credibilidade, mas não os criticou.Ah é verdade você odeia o homem para criticar um, critique todos

  28. João Graça diz:

    Estará longe de alguma vez macaquear a sua profissão participando num sketch humorístico desta forma, representando-se a si mesmo. O dedo deverá ser apontado quando não desempenham bem as suas funções, algo que nunca foi colocado em causa pelo Rodrigo Guedes Carvalho.

  29. Caro Antónimo, não posso estar mais de acordo consigo quando escreve que “O jornalismo faz-se de rigor, procura da verdade, contraditório, pluralismo, audição de interesses atendíveis. Isso nem sequer dá vendas”. São precisamente esses princípios que conferem legitimidade e credibilidade a um jornalista. E por isso quando um jornalista usa o seu estatuto para macaquear a sua profissão perde credibilidade.

  30. Antónimo diz:

    Perdão,mas é asneira, e da grossa, essa de que a creddibilidade é a fonte de legitimidade do jornalismo.

    Repetida ad nausea por muitos jornalistas e gente do meio.

    A credibilidade é uma imagem, uma mera representação. Não legitima absolutamente nada.

    Para quem o lê, o Correio da Manhã é o mais credível dos jornais, tem ainda por cima a legitimidade das vendas, e ninguém duvide que os grandes números legitimam. De tal modo, que as agendas noticiárias televisivas seguem em grande medida o rasto de sangue do diário da Cofina.

    Credibilidade valor jornalístico? Uma ova. Os jornais e o jornalismo estão cheios até ao tecto de aldrabões e trafulhas credíveis, O jornalismo faz-se de rigor, procura da verdade, contraditório, pluralismo, audição de interesses atendíveis. Isso nem sequer dá vendas.

    Mais vale ter credíveis e televisivas recepcões a longas bichas de banqueiros, outra gente credivel, do que tentar perceber o motivo de tanta oferta.

    Quanto ao tema aqui exposto: Perfeitamente de acordo. Um jornalista até pode ser também actor e representar, mas macaquear o jornalismo perante grandes audiências é tão catastrófico como misturar estudantes de jornalismo e de comunicação institucional nas mesmas turmas.

  31. jose neves diz:

    Eu não vi o programa. Confesso que já não tenho paciência para olhar/ouvir fedorentos após o fedor insuportável destes governantes.
    Só queria referir que, hoje em dia, participar/colaborar com os gatos fedorentos é tornar-se, automaticamente, como eles, palhaço rico da Portugal Telecom.

  32. diz:

    Gostei imenso de RGC. Se outros podem cantar e dançar porque não pode RGC tomar parte de um registo humorístico?
    Pior mas muito pior do que RGC são os que com uma postura “séria” nos enganam todos os dias, subvertendo a informação debitando mentiras com um total despudor.
    PS: Também gostei da “solução”.

  33. Maria diz:

    Está tudo dito! Partilho como sempre.

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