Voltando ao programa dos Gato(s)

RGC Gato FedorentoO meu post sobre o programa dos Gato Fedorento provocou comentários inflamados de discordância ou concordância acerca da presença do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC) numa entrevista ficcionada conduzida por ele nesse programa.

A discussão é oportuna e merece continuada, uma vez que o jornalismo é uma actividade fundamental para a qualidade da democracia, pelo seu papel escrutinador dos poderes e de defesa do interesse público. Para melhor enquadrar o meu ponto de vista, invoco  alguns princípios que historicamente definem  o jornalismo:

Os  cidadãos e a sociedade esperam receber dos jornalistas  informação rigorosa e independente sobre o que acontece no mundo. Em troca da independência a que está obrigado, o jornalista é credor de confiança, credibilidade e autoridade, qualidades que lhe conferem uma legitimidade e um estatuto que o colocam acima de quaisquer interesses, sejam eles de natureza  pessoal ou política, respeitem a  instituições públicas ou  privadas. Mas não basta que um jornalista se declare  independente e rigoroso. É preciso que o público lhe reconheça essas qualidades.

Ser jornalista pressupõe, por exemplo, não fazer publicidade, não exercer cargos políticos, não escrever sobre assuntos em que tenha interesses. Um jornalista possui uma carteira profissional, tem um estatuto e um código deontológico que lhe impõem regras, deveres e direitos. Um jornalista pode, por exemplo, em tribunal, invocar segredo profissional e objecção de consciência,como poucas outras profissões.

Naturalmente que não está em causa que um jornalista, seja Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC) ou outro, entreviste humoristas ou quem quer que seja. Isso faz parte das suas funções e acontece todos os dias, seja em telejornais, em debates ou em  outros géneros e espaços  informativos. Trata-se de entrevistas jornalísticas que obedecem às regras da profissão.

Uma entrevista jornalística define-se  pelo estatuto do entrevistador. Se um político entrevista outro político ou outra pessoa qualquer não passa a ser jornalista pelo facto de fazer perguntas. Mesmo que o palco dessa entrevista seja a televisão ou outro meio. Do mesmo modo,  nem todos os que escrevem num jornal são jornalistas.  Não perceber isto é não perceber nada sobre o que é o jornalismo.

Quando Ricardo Araújo Pereira (RAP) entrevistou os políticos na campanha eleitoral de 2009, não passou por isso a ser jornalista. Nessas entrevistas, o telespectador sabia que se tratava de um espaço de humor e ninguém ali alterou o seu estatuto: RAP continuou a ser o humorista que é e os políticos que convidou continuaram a ser o que são: políticos. A expectativa do telespectador  era a de que RAP fizesse humor com os políticos que entrevistava e ver como estes reagiriam e resistiriam. Ninguém ali foi ao engano.

Ora, no programa desta sexta-feira, qual era a expectativa quanto à presença de RGC no programa dos Gato Fedorento?  Sendo ele jornalista, esperar-se-ia que fosse uma  entrevista jornalística.

Mas essa hipótese  desvaneceu-se imediatamente quando se verificou que o jornalista participou no “non sense” da conversa como se estivesse, não a brincar, mas no seu papel de entrevistador. Qual era então o seu papel ? A resposta deu-a o próprio RGC, visivelmente  pouco à vontade naquele lugar.

A ambiguidade desse papel continuou quando no final do programa o  próprio RGC, entrevistado por uma risonha jornalista (não sei se o era), afirmou que tinha “caído numa armadilha”, confundindo  os telespectadores incluindo mesmo alguns jornalistas.

Finalmente, as minhas observações são analíticas e não pessoais. Estimo e respeito  RGC, e daí a surpresa que confessei no post anterior. Penso que  o escrutínio do jornalismo  é natural e necessário, concorde-se ou não com os argumentos utilizados.

 

 

 

 

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4 respostas a Voltando ao programa dos Gato(s)

  1. Interessa manter o faz de conta que os jornalistas são…,mas os exemplos – eleiçoes dos1º ministros ingleses com campanhas de jornalistas/invasão do Iraque ou da Libia com mentiras descaradas dos impolutos “jornalistas” e jornais de referencia=( já vão em 500 mil mortos) e…
    aconselham a quem não goste de ser o ultimo a saber a defender-se com informação de varias fontes e mesmo assim duvidar.Ainda há poucos dias andavam aí os mentideros todos enervados com as campanhas nos blogs e medias de adeptos dos jotinhas que no albergue espanhol movimentavam campanhas na radio eoutros meios para derubarem um holandinho e leger os jotinhas 😮 que estava errado é que alguem se deixa enganar por estes “apoios” de im polutos sabedores. Lá vai aparecer o tacho em Paris ou noutro lado mais tarde.
    Como se espantava o outro: ficam todos enervados dos romenos/ciganos estarema viver mal aqui e expulsam,mas não mexem uma palha pelas condiçoes muito piores em que vivem de onde vêm. Tanto barulho por aqui estar declaradamente e fingir,mas quando perguntam pelas fugas de informação na justiça não estão a mentir mais: se alguem sabe de onde vêm as fugas são exactamente os jornalistas, porquê fingirem ainda hipocritamente mais que RGC

  2. Antónimo diz:

    Embora até aprecie RGC (terá escorregado sem querer, que a velocidade tem disto), a defesa que por aí a baixo (e também aqui, com a resposta do Zé) da presença de um jornalista fazendo de jornalista num programa de humor, é a defesa de tudo aquilo que os jornais têm feito para se descaracterizarem e assassinarem o jornalismo.

    “Mas que mal tem lá isso?”, perguntam zangados, toda a gente percebeu, toda a gente distingue – isto no mesmo país onde nem os jornalistas perceberam que a tróica não “ajuda” ou perceberam que entrevistar tanto banqueiro trazia água no bico.

    Esquecem apenas que mal é começar. primeiro permite-se que se entreviste uns humoristas, depois permite-se que façam relações públicas.

    Honestidade é o grande valor jornalístico, não a credibilidade. E aprecio bem mais o trabalho de RGC que do Joaquim Vieira que se juntou aos críticos do pivô da SIC.

  3. Zé, temos visões diferentes sobre o que é o jornalismo e o papel do jornalista. Respeito a sua opinião mas mantenho a minha. Muita gente acreditou que quando RGC disse, no fim do programam que “caíu numa armadilha” tinha mesmo caído. Evidentemente que ninguém leva a sério o que dizem os Gato mas levam a sério, assim o espero, o que diz o RGC. Essa é a diferença e não é pequena.

  4. diz:

    A presença de RGC no programa dos Gatos fazia prever que fosse uma entrevista jornalistica?
    Alguém esperaria que o programa e a “solução” fossem a sério?
    O RGC estava desconfortável durante o programa?
    RGC assumiu ter sido enganado?
    Pelo amor de Deus deixe-se disso (a doutora é uma mulher inteligentissima), então não se está a ver que foi apenas um programa humoristico, bem ensaiado, com a qualidade que se esperaria dos Gatos e com um posicionamento correctissimo do RGC.
    “Tenho algumas dúvidas que a solução contribuisse para a melhoria de deficit, tenho de confirmar com o José Gomes Ferreira” ah ah ah, que frase espectacular dita pelo RGC quando estava a ser entrevistado.

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