À volta do jornalismo

Este artigo de Pedro Tadeu, sub-director do Diário de Notícias, intitulado “A palhaçada de Rodrigo Guedes de Carvalho” critica o meu post sobre a presença do jornalista da SIC no programa dos Gato Fedorento.

A crítica é sempre bem vinda mas não fiquei esclarecida sobre a posição de Pedro Tadeu. É que, ao mesmo tempo que chama “palhaçada” à participação de Guedes de Carvalho no citado programa, Pedro Tadeu critica quem criticou a presença do jornalista da SIC naquele programa nos moldes em que a mesma aconteceu.

Gostaria de dar razão a Pedro Tadeu ou a Nuno Azinheira (que também criticou indirectamente o meu post, na sua coluna do DN). A questão é  que nem um nem outro argumentam, apenas discordam. Leia-se Pedro Tadeu:

Portanto, (…) um jornalista não pode armar-se em palhaço. Em princípio estou de acordo com tão profunda reflexão, mas este desasossego intelectual que me atormenta leva-me a olhar à volta… E anoto: Um jornalista pode ter uma carreira construída a servir sociedades secretas em vez de servir leitores. Um jornalista pode esconder a sua preferência partidária e enganar quem o lê. Um jornalista pode omitir qual o clube do seu coração e simular isenção. Pode servir secretamente um candidato a primeiro-ministro e ir parar ao Governo. Pode escrever um milhão de notícias com base em fontes anónimas, não verificadas, destruir reputações e ainda ganhar prémios! Pode recusar corrigir publicamente os erros que comete. Pode, oh se pode, almoçar grátis com um pelotão de cobradores de almas. Um jornalista pode noticiar política sem ter lido a Constituição. Pode ser de cultura e nunca ter lido Os Lusíadas. Pode ser de Justiça sem saber a diferença entre Código Penal e Código do Processo Penal. Pode ser de economia e incapaz de calcular uma taxa de juro. Um jornalista pode, portanto, fazer da profissão uma palhaçada, não pode é parecer um palhaço. (…)”.

Pedro Tadeu deve saber que um jornalista não pode fazer nada do que ele cita, embora ironicamente,  invocando o que vê “olhando à volta” (não esclarece se é no seu jornal). Tadeu fala, pois, do que conhece.

Ora, se o argumento para defender o que chama de “palhaçada” de Guedes de Carvalho consiste em invocar outras “palhaçadas” jornalísticas, é caso para dizer que a crise do jornalismo não é só de natureza económica e financeira, é muito mais profunda.

A permissividade relativamente a questões “core” do jornalismo, subjacente aos casos citados por  Pedro Tadeu, como sejam a independência e equidistância face a interesses pouco transparentes ou a lealdade para com os públicos, e a tolerância revelada por Nuno Azinheira  perante o esbatimento da fronteira entre jornalismo e ficção – “os leitores não são parvos”, argumenta – são preocupantes vindas de jornalistas com responsabilidades na hierarquia de uma redacção.

Os leitores podem não ser “parvos” nem “tolinhos acéfalos” mas se forem exigentes não aceitam “palhaçadas” vindas de jornalistas (para citar Nuno Azinheira e Pedro Tadeu).

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4 respostas a À volta do jornalismo

  1. antónimo diz:

    E, entretanto, um destes dias, a pivô loira passou a emissão para Clara de Sousa que trazia uma notícia de última hora.

    E Clara de Sousa anunciou que a sic estava a ser invadida por desenhos animados como modo de promoção de uma programação qualquer.

    Clarinho como água o propósito. Mas que raios, então ser toda a gente percebe…

  2. Tem inteira razão, ao meu ver.
    Quer no primeiro, quer neste poste.
    Eu critiquei o escrito de Tadeu, justamente nesta base. Nem, nem, diz ele. Que é lá isso? perguntei. E porquê? Não fiquei esclarecido com ele…

  3. Antónimo diz:

    fiz mal as contas. referia o segundo parágrafo, como mais relevante:

    «“Mas que mal tem lá isso?”, perguntam zangados, toda a gente percebeu, toda a gente distingue – isto no mesmo país onde nem os jornalistas perceberam que a tróica não “ajuda” ou perceberam que entrevistar tanto banqueiro trazia água no bico.»

  4. Antónimo diz:

    Num país onde um terço das pessoas nunca usou a net e se confundem actores com as suas personagens nas novelas, sinto que muito gente fala de um país como o daquele vp do psd que acreditava que cinco mil euros por mês eram classe média baixa:

    Repito o que mais a baixo comentei, com especial destaque para o terceiro parágrafo:

    «Embora até aprecie RGC (terá escorregado sem querer, que a velocidade tem disto), a defesa que por aí a baixo (e também aqui, com a resposta do Zé) da presença de um jornalista fazendo de jornalista num programa de humor, é a defesa de tudo aquilo que os jornais têm feito para se descaracterizarem e assassinarem o jornalismo.

    “Mas que mal tem lá isso?”, perguntam zangados, toda a gente percebeu, toda a gente distingue – isto no mesmo país onde nem os jornalistas perceberam que a tróica não “ajuda” ou perceberam que entrevistar tanto banqueiro trazia água no bico.

    Esquecem apenas que mal é começar. primeiro permite-se que se entreviste uns humoristas, depois permite-se que façam relações públicas.

    Honestidade é o grande valor jornalístico, não a credibilidade. E aprecio bem mais o trabalho de RGC que do Joaquim Vieira que se juntou aos críticos do pivô da SIC.»

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