A mensagem no descodificador

A mensagem de Natal do primeiro-ministro deve ser lida como o auxílio de um descodificador. Neste tipo de “programas” para televisão os protagonistas não são submetidos ao detector de mentiras já que se correria o risco de o aparelho apitar continuamente não permitindo ouvir o orador. Por isso é necessário procurar o sub-texto, já que o texto é papel de embrulho.

Mensagem de Natal PM

Quando o PM afirma que  o grande objectivo para 2014 é “terminar o Programa de Assistência Financeira sem percalços” está a avisar Paulo Portas e o CDS para se deixarem de fitas e de “demissões irrevogáveis” porque as pensões são mesmo para cortar doa a quem doer – leia-se ao Presidente e ao Tribunal Constitucional – porque ele arranjará maneira de pôr os velhos a pão e água.

Quando Passos afirma que  “precisa” de todos os instrumentos que mobilizou para “concluir sem perturbações o programa de assistência”, está a dizer que os “instrumentos” e a “música” são os mesmos: perseguir os funcionários públicos e os pensionistas, proteger os bancos e as parcerias público-privadas, não tocar nos interesses instalados, não levantar cabelo perante a troika, isto é, baixar as orelhas quando a troika manda cortar.

Quando o PM afirma que o ano de 2013 viu “os primeiros frutos” da “estratégia abrangente” do seu  Governo e que a economia  “começou a dar a volta”, devemos entender que o empobrecimento do país foi um êxito,  os sem-abrigo já esgotaram as pontes disponíveis para lhes servirem de tecto, a  exportação de jovens qualificados mostra “um crescimento sustentado por quotas de mercado” ganhas aos “nossos competidores” e devido à entrada “em mercados em que Portugal nunca tinha entrado”, por exemplo, através da exportação de cientistas. 

E quanto à redução do défice orçamental, Passos lamenta-se de que só não se foi “mais longe” porque “precisámos dos recursos para garantir os apoios sociais e a ajuda aos desempregados”. Nesta passagem, o PM está a dizer-nos que por vontade dele, queria lá saber de apoios sociais e tretas dessas e os desempregados que peçam ajuda aos pais e avós enquanto estes ainda vão recebendo alguma parte das pensões porque isso também é para acabar. O PM quer “ir mais longe” e só ficará satisfeito quando o padrão de vida dos portugueses for a sopa dos pobres e quando o banco da senhora Jonet chegar a todos os lares. 

Os resultados do ajustamento são um êxito, diz o PM, revelando a competência do governo para o esbulho dos portugueses. “Ninguém pode ficar para trás”, ameaça o primeiro-ministro. É melhor levá-lo a sério!

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5 respostas a A mensagem no descodificador

  1. A dificuldade insanavel de nos livrarmos deste tipo de soluções governativas encontar-se interpretando este grafico que encontrei e recoemndo uma passagem a todos http://pmcruz.com/work/an-ecosystem-of-corporate-politicians

  2. F Soares diz:

    A sua grande dúvida ( dele) é se ( e como) poderá exterminar o extrato da população de portugueses/as que está reformada…. Isso é que era baril e dava para fazer a restruturação sem problemas! Mas há coisas que a sociedade ainda não está preparada para compreender….
    Esta é que parece a descodificação da globalidade da mensagem…. O resto não o preocupa, tal a facilidade com que mente.

  3. José M. Baeta diz:

    As característiscas fundamentais da ética jornalística são: objetividade, imparcialidade, precisão e confidencialidade. Os meus parabéns! Neste seu artigo, a senhora, que parece que é “doutorada em Sociologia da Comunicação, da Cultura e da Educação pelo ISCTE, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa” e, tanto quanto sei, é (ou foi) membro do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, acaba de violar, pelo menos, as primeiras três.

  4. MM diz:

    Eu a esta: “E quanto à redução do défice orçamental, Passos lamenta-se de que só não se foi “mais longe” porque “precisámos dos recursos para garantir os apoios sociais e a ajuda aos desempregados”. Diria que ele está a dizer que por ele despediria todos os funcionários públicos mas que não o faz porque precisa dos seus descontos para apoiar os que ainda recebem algum subsidio

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