Avaliar a troika é missão patriótica que não pode ser desperdiçada

troikaQuando li a notícia de que o Parlamento Europeu (PE) decidira fazer uma investigação aos programas de resgate aplicados pela troika à Irlanda, Grécia e Portugal, fiquei expectante e entusiasmada com uma iniciativa que me pareceu importante e democrática.

Este fim de semana, a notícia voltou, até com chamada de primeira página, no Público, com a informação de que Sócrates será o primeiro político a ser ouvido pelos relatores do PE (Sócrates, mais uma vez,  “gancho” de notícia…).

A crer nas notícias,  não se trata afinal de uma investigação à “actuação da troika em cada país” (segundo o Público citando o deputado do CDS e relator, Diogo Feio). “Em cima da mesa está apenas “o modelo da troika numa lógica de melhorar o funcionamento das intervenções para o futuro”.

É certo que na equipa de relatores nem todos encaram a “missão” como Diogo Feio, e que outra das relatoras, a deputada socialista Ana Gomes, considera que “não é aceitável que a troika não seja responsável perante ninguém”, o que sugere que  deverão ser apuradas responsabilidades. Ora, a divergência patente nestas duas posições mostra que os relatores não se entendem numa questão tão fundamental como definir qual é o objecto da missão que vão realizar.

Aliás, o facto de a missão dos deputados ser classificada de “fiscalização política” levanta desde logo sérias dúvidas sobre os seus resultados, dados os precedentes dos inquéritos  parlamentares nacionais, que se traduzem quase sempre em relatórios partidários ao gosto da maioria (vidé o escandaloso relatório da deputada Clara Marques Mendes sobre os swaps).

E no entanto uma investigação aos programas aplicados pela troika nos países ditos sob resgate, seria uma oportunidade importantíssima para perceber o que aconteceu aos países vítimas desses programas e se se tratou de incompetência ou de experimentalismo deliberado. Essa investigação necessitaria de um programa que não se limitasse à audição dos protagonistas (naturalmente, indispensável) mas incluísse também indicadores sociais, económicos e financeiros, análise das declarações produzidas pela troika em momentos chave, análise de notícias na imprensa dos países resgatados, tentando perceber estratégias de comunicação (que as houve, em Portugal) inquéritos às populações afectadas pelos programas, consequências no curto, médio e longo prazo para os países onde os programas de resgate foram aplicados. Enfim, falo de um programa de investigação e não de um “relatório político” (útil, certamente, mas insuficiente para a dimensão do problema).

Um relatório que se limite a reproduzir declarações dos actores que assinaram o programa de resgate e dos que o criaram e fiscalizaram será apenas um dejá vu. Esses, ouvimo-los ao longo dos últimos meses.  Se assim for, será, ainda assim, melhor que nada. E talvez a partir dele se possa partir para uma investigação alargada.

 

 

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4 respostas a Avaliar a troika é missão patriótica que não pode ser desperdiçada

  1. Pingback: Sócrates trocou as voltas aos deputados Feio e Fernandes | VAI E VEM

  2. Neste ano de 2014 seria importante ideias sólidas e bem inspiradoras para formar opinião sobre as maisimportante eleição. As eleiçoes para o PE merecem que todos se empenhem em ter opinião fundada e votem com critério. Como o nosso futuro depende mais das decisoes tomadas fora do que os governos internos tomam( e só depois de aprovadas por Bruxelas) devemos dar prioridade a essa eleição e tambem aos tratados e regras europeias que provavelmente poderiam ser readaptadas para responderem melhor as necessidades actuais, que naturalmente já mudaram desde a sua assinatura. Estar a forçar o seu cumprimento quando só porque lhe damos o estatuto de “vaca” sagrada (bem ao estilo das religioes) provoca o que frequentemente acontece cá : andam a correr atras de leis e constituição que há poucos anos definiram como uma desgraça. Não perder a face éuma das mais interesantes facetas da cultura oriental que infelizmente não acolhe dos politicos e acolitos em Portugal.

  3. Concordo inteiramente com o seu ponto de vista. Alguma coisa é realmente melhor que nada e acredito que tratando-se do Parlamento Europeu o inquérito, embora político, vai funcionar melhor que os do nosso parlamento.

  4. Marta Neves diz:

    Cara Estrela Serrano,
    Só para chamar a atenção para o facto seguinte: nem o Diogo Feio, nem a Ana Gomes, nem aliás nenhum eurodeputado português é relator (ou sequer relator sombra) para esta questão. Têm o direito automático de integrar (como observadores mas não oficialmente como membros) esta delegação do PE por ter lugar em Portugal.
    Por outro lado, certamente que o Parlamento Europeu vai chegar a uma posição comum e politicamente vinculativa sobre a avaliação técnico-jurídica da Troika, independentemente de posições divergentes de grupos políticos ou deputados individuais (como aliás é prática comum daquela câmara, ou o PE nunca chegaria a votar nenhuma resolução comum em sessão plenária).
    Já quanto ao conteúdo dessa futura resolução do PE, talvez venha a ter razão. Vamos esperar que não.
    Cumprimentos e votos de um excelente ano!
    Marta Loja Neves

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