O Presidente francês e a primeira dama

Eliseu conf de imprensa pergunta a HollandeA primeira pergunta ao Presidente na sua 3.ª grande conferência de imprensa do mandato, numa sala repleta de jornalistas que mais parecia participarem num evento social do que numa sessão de trabalho, tal a imponência do lugar, o traje dos presentes e a presença de todo o governo,  veio do Presidente da Associação da Imprensa Presidencial, que foi, digamos, directo ao assunto do momento em França: 

Valérie Trierweiler ainda é primeira dama de França?

Entre pausas, de rosto sério e preocupado, Hollande respondeu: « Les affaires privées se traitent en privé, dans une intimité respectueuse de chacun. Ce n’est donc ni le lieu ni le moment de le faire. » « Je comprends votre question et je suis sûr que vous comprendrez ma réponse. Chacun dans sa vie peut traverser des épreuves. C’est notre cas. (…) Mais si je ne répondrai à aucune question sur ce sujet aujourd’hui, je le ferai avant le rendez-vous [avec Barack Obama, le 11 février à Washington].»

Pode ser que a pergunta não tenha sido combinada mas se o não foi, calhou mesmo bem ao Presidente. Hollande esvaziou, logo ali, a pressão e a ambiguidade que poderiam ter pairado sobre toda a sessão. De facto, a frontalidade e clareza com que enfrentou a questão, respondendo sem responder e remetendo para mais tarde uma resposta sobre a sua relação com Valérie funcionaram na perfeição. Ninguém mais voltou ao assunto e a conferência de imprensa manteve a pompa e a circunstância.

Talvez isto só pudesse ter acontecido em França. E mesmo a formulação da pergunta é quase original. Noutro qualquer lugar, onde os Presidentes e os jornalistas não possuem sobre os respectivos estatutos o conceito dos franceses, a pergunta seria de outro género, por exemplo, se o Presidente confirma a relação com a actriz Julie Gayet, se vai demitir-se, se vai separar-se de Valérie…. E também o presidente teria talvez respondido bruscamente, ou pura e simplesmente nada teria dito, ou  ninguém lhe faria no início aquela pergunta (talvez no final), ou a conferência de imprensa teria sido adiada.

Dividem-se em França e noutros lugares as opiniões sobre o caso: uns consideram que ficou abalada a imagem do Presidente, outros que o Presidente não tem vida privada, outros que, sendo solteiro, o Presidente pode ter as amantes que quiser. Invocam-se os casos de Miterrand, Chirac, Sarkosy, todos com romances pelo meio das suas presidências e dos seus casamentos.

Mas, para além de tudo isso, o que me parece digno de nota é o facto de os franceses manterem sobre a vida privada dos seus presidentes uma atitude que não encontramos noutros países, não apenas no que se refere aos media mas sobretudo por em França o Presidente poder viver no palácio presidencial com uma mulher com a qual não se casou e esta poder desempenhar, com naturalidade, as funções de “primeira dama”.

Nem é preciso buscar nos Estados Unidos as diferenças entre a França e os outros nesta matéria: há uns anos, um presidente sul-americano de visita a Portugal  fez-se acompanhar de uma dama que se sabia ser sua amante mas não foi autorizada a instalar-se na residência onde o presidente ficou alojado, nem o protocolo lhe reconheceu qualquer direito. Um outro caso, este numa deslocação presidencial a um país estrangeiro, onde dois dos convidados – uma mulher e um homem- mantinham há anos assumidamente uma relação conhecida de todos os membros da comitiva mas aos quais foram destinados pelo protocolo quartos separados no hotel. Mais elucidativo, recordem-se as críticas a Sá Carneiro pela sua relação com Snu Abecassis…

Não sei se a diferença está nos presidentes, nos media, ou no povo. Seja como for, o “modelo” francês é, pelo menos mais transparente, apesar de o Presidente Hollande visitar de motard e capacete a sua nova namorada.

Seja qual for o aproveitamento político que o caso vier a ter, Hollande talvez tenha ganho alguns pontos na sua abalada imagem pela maneira como enfrentou a pergunta do jornalista sobre a “primeira dama” na conferência de imprensa.

 

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