Sobre a tragédia do Meco, o tempo é ainda o dos media

Dos comentadores e cronistas não se espera que dêem notícias (alguns dão) ou reportem factos. Espera-se que analisem e interpretem a realidade, exponham ideias, contribuam para o esclarecimento de situações e que o façam de modo rigoroso e com argumentos sustentados.

Quando escrevem sobre acontecimentos de actualidade espera-se que, pelo menos, acompanhem o seu desenvolvimento e actualizem a sua própria informação antes de escreverem. Se o assunto sobre que escrevem for sensível ou  doloroso para pessoas de quem se fala, espera-se que o comentador que escolhe esse tema use de prudência, sem prejuízo da reflexão que pretende fazer.

No artigo deste sábado, no Público, Vasco Pulido Valente usa o habitual sarcasmo a que habituou os leitores num escrito duplamente cruel sobre a tragédia do Meco. O Público anula-o ao publicar as declarações da família do sobrevivente mesmo ao lado do seu artigo, tornando ainda mais evidente a arrogância intelectual do autor. No mesmo jornal, Pacheco Pereira toca o âmago das praxes com serenidade e sem acusações gratuitas.

Nas televisões é tempo de reconstituições. As peças emitidas mostram que a reportagem é ainda o género jornalístico por excelência. São histórias da tragédia, técnica e esteticamente bem narradas. Nem todas as escolhas são neutras mas a reportagem, mais que a notícia, é o olhar do jornalista.

Todavia, muitas dúvidas, contradições e interrogações subsistem sobre o que aconteceu no Meco, para além dos factos narrados e dos depoimentos recolhidos pelos repórteres. Diria mesmo que há hoje mais dúvidas sobre o que aconteceu do que havia nos dias seguintes à tragédia.

Os jornalistas fizeram perguntas e obtiveram respostas. Dessas respostas resultam novas perguntas que serão ainda respondidas e suscitarão outras tantas perguntas… É ainda o tempo dos media. A justiça virá mais tarde revelar o que descobriu e a que conclusões chegou.

Mas a tragédia do Meco será um dia recordada como lenda e mistério. De concreto e de seguro,  saber-se-à apenas que seis jovens desapareceram no mar e que um sobreviveu. Que envergavam trajes académicos. Que era noite, quase madrugada, e o mar estava invulgarmente bravo…

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