A tragédia do Meco e as fronteiras do Jornalismo

Meco ReconstituiçãoCausou reacções contraditórias e radicais – de repulsa ou de muito apreço – a peça da TVI  na qual a jornalista Ana Leal – cria uma história imaginária a que a TVI chamou  “reconstituição” de uma  praxe alegadamente praticada anteriormente pelos alunos da Universidade Lusófona para a qual foram utilizados figurantes trajados que no cenário real dos acontecimentos  – a povoação, a casa, a praia – representaram o papel das vitimas da tragédia. Uma voz feminina, em off, vai narrando o desenrolar da praxe, ora descrevendo o ambiente sinistro que as imagens mostravam, ora dando a palavra aos figurantes  que respondiam ao “dux”.

Esta peça é  uma história ficcionada sobre o que é ou pode ser um exemplo de praxe. Não é uma peça jornalística sobre um acontecimento real. E não é jornalismo porque o jornalismo não ficciona, embora possa fazer reconstituições a partir de factos e de testemunhas. O que vemos nesta peça não é uma reconstituição, uma vez que não há  fontes, nem testemunhos, nem factos. Há apenas uma voz que narra e “diálogos” inventados, travados na praia entre o “dux” e os “estudantes praxados”. Esses diálogos  não são susceptíveis de serem reconstruídos, simplesmente porque nada se sabe sobre eles, nem sequer se existiram.

O problema é a TVI ter feito passar esta peça por jornalismo e tê-la apresentado como “uma reconstituição do ritual de praxe que terá ocorrido na noite de 15 de dezembro, na praia do Meco. Segundo os dados apurados, o ritual da praxe da Universidade Lusófona inspira-se na «Hora do Diabo», de Fernando Pessoa, e simboliza o levar da ignorância para o mar.”

Informações posteriores nas redes sociais, dão nota de que a  peça se baseia numa praxe inventada por um internauta. Ora, não altera o fundo da questão saber se a história relatada na peça corresponde ou não a uma praxe real. Tal como foi apresentada pela TVI  é apenas uma praxe ficcionada.

Uma reconstituição dos acontecimentos do Meco  é por exemplo,  esta peça da RTP, baseada  em factos testemunhados por pessoas que os relataram de viva voz.

Deve, porém, dizer-se que a TVI  emitiu há dias uma outra peça, essa sim uma peça jornalística, na qual a repórter Ana Leal revela documentos inéditos, como sejam emails trocados entre os estudantes nos dias que antecederam a tragédia e uma “lista de compras” sobre os preparativos para o fim de semana fatal, escrita por uma das raparigas desaparecidas.

A tragédia do Meco desafia os jornalistas a reflectirem sobre, por um lado, as fronteiras entre o jornalismo e a ficção e, por outro, entre o papel do repórter e o do agente policial.

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7 respostas a A tragédia do Meco e as fronteiras do Jornalismo

  1. carlosalvares diz:

    ———- Mensagem encaminhada ———-

    De: Carlos Patricio

    Data: 9 de Fevereiro de 2014 às 13:42

    Assunto: ADAMASTOR E NEPTUNO OS VERDADEIROS CULPADOS

    Para: cartas@expresso.impresa.pt

    ADAMASTOR E NEPTUNO OS VERDADEIROS CULPADOS

    As praxes foram uma forma que a mocidade estudantil criou para fomentar os laços de companheirismo e amizade que os estudantes criam durante a sua vida académica. Através delas fazem-se amizades que duram toda a vida. Não devem pois acabar ou serem diabolizadas. Devem,sim, é serem disciplinadas. É conhecida e até normal, a tendência da mocidade para o exagero, para o acto irrefletido, precipitado. E o quase passou no Meco demonstra-o.

    À juventude, tradicionalmente irreverente, impulsiva, imaginativa,ciosa da sua independência, é difícil aceitar a opinião de quem já a

    ela não pertence. É natural que assim seja. Todavia, os funestos acontecimentos do Meco, talvez levem a que, no futuro, essa opinião

    seja aceite e não considerada abusiva intromissão.

    Um pouco de ponderação, as praxes serem submetidas a uma análise prévia por alguém mais atento, mais calculista, já sem a precipitação e entusiasmo dos verdes anos, poderia ter evitado a tragédia. No entanto esta é uma sugestão para o futuro. Não para justificar o que se passou, consequência de falta de análise, precipitação,irreverência, facilitismo, alegria, desejo de experimentar sensações novas, de viver intensamente a vida. Enfim, tudo aquilo que nos caracteriza quando somos novos.

    Compreendo que a dor das famílias, em choque com tal fatalidade,queira arranjar outras explicações para tão traumatizante situação.

    Martirizarem-se, lamentarem o sucedido, o destino, chorarem, é uma forma de algum modo, lembrarem os filhos que perderam, tentar

    conseguir um pouco de consolo. Assim, os entes queridos desaparecidos,continuam vivos na sua memória. Já o procurarem culpados por um descuido que, ao ser aceite por todos, passou a ser coletivo e não individual, só a dor e desgosto sentido, explica e justifica.

    Li o comentario feito a este caso, por uma pessoa que atualmente é Presidente de uma Câmara. Disse que quando estudante se recusara a cumprir a praxe. Sofreu sanções académicas sim, mas não fez o que considerou errado. Não conheço o João Miguel Gouveia, mas considero que não merece ser crucificado como parece quererem fazer.

    Até li que se fala em homicídio por niglegência!.. Certamente sendo cúmplice o Adamastor ou Neptuno, rei dos mares, que enviou a onda

    assassina. Ao que se chegou a respeito de ocorrência tão infeliz, tão triste! Negligência podia-se talvez dizer, se houvesse alguma norma

    estabelecida que não tivesse sido cumprida. Não… foi o entusiasmo, a excitação que o ambiente e expectativa da praxe cria, Desatentos,

    eufóricos, alegres e ótimistas, não dava para maus pensamentos ou cautelas.

    Nunca será esquecida pelos familiares, amigos e por todos que conhecerem esta tragédia, a injustiça existente no desaparecimento

    destes jovens. A mãgoa jámais passará. A indecorosa especulação que é eita sobre o assunto, também não ajuda à tranquilidade de espírito que mães e país necessitam para aceitarem esta fatalidade.Todavia, a conformação é difícil, a dor é grande. Mas as palavras da

    Mãe de uma das vítimas, com desgosto idêntico ao das outras Mães que perderam os filhos, são bem lúcidas e elucidativas da realidade:

    “NÃO TENHO ELEMENTOS PARA ACUSAR NINGUÉM. APENAS POSSO PENSAR QUE TUDO SE TRATOU DE UMA INFELICIDADE, DE UM ACIDENTE, DE SETE JOVENS QUE ESTAVAM NO SÍTIO ERRADO À HORA ERRADA. ACREDITO QUE O PRÓPRIO

    SOBREVIVENTE SEJA, ELE MESMO, UMA VÍTIMA DA SITUAÇÃO E QUE CARREGARÁ PARA SEMPRE O PESO IMENSO E SENTIMENTO DE IMPOTÊNCIA PERANTE A TRAGÉDIA”

    Carlos Patrício Álvares

    ———- Mensagem encaminhada ———-

    De: Carlos Patricio

    Data: 9 de Fevereiro de 2014 às 13:42

    Assunto: ADAMASTOR E NEPTUNO OS VERDADEIROS CULPADOS

    Para: cartas@expresso.impresa.pt

    ADAMASTOR E NEPTUNO OS VERDADEIROS CULPADOS

    As praxes foram uma forma que a mocidade estudantil criou para fomentar os laços de companheirismo e amizade que os estudantes criam durante a sua vida académica. Através delas fazem-se amizades que duram toda a vida. Não devem pois acabar ou serem diabolizadas. Devem,sim, é serem disciplinadas. É conhecida e até normal, a tendência da mocidade para o exagero, para o acto irrefletido, precipitado. E o quase passou no Meco demonstra-o.

    À juventude, tradicionalmente irreverente, impulsiva, imaginativa,ciosa da sua independência, é difícil aceitar a opinião de quem já a

    ela não pertence. É natural que assim seja. Todavia, os funestos acontecimentos do Meco, talvez levem a que, no futuro, essa opinião

    seja aceite e não considerada abusiva intromissão.

    Um pouco de ponderação, as praxes serem submetidas a uma análise prévia por alguém mais atento, mais calculista, já sem a precipitação e entusiasmo dos verdes anos, poderia ter evitado a tragédia. No entanto esta é uma sugestão para o futuro. Não para justificar o que se passou, consequência de falta de análise, precipitação,irreverência, facilitismo, alegria, desejo de experimentar sensações novas, de viver intensamente a vida. Enfim, tudo aquilo que nos caracteriza quando somos novos.

    Compreendo que a dor das famílias, em choque com tal fatalidade,queira arranjar outras explicações para tão traumatizante situação.

    Martirizarem-se, lamentarem o sucedido, o destino, chorarem, é uma forma de algum modo, lembrarem os filhos que perderam, tentar

    conseguir um pouco de consolo. Assim, os entes queridos desaparecidos,continuam vivos na sua memória. Já o procurarem culpados por um descuido que, ao ser aceite por todos, passou a ser coletivo e não individual, só a dor e desgosto sentido, explica e justifica.

    Li o comentario feito a este caso, por uma pessoa que atualmente é Presidente de uma Câmara. Disse que quando estudante se recusara a cumprir a praxe. Sofreu sanções académicas sim, mas não fez o que considerou errado. Não conheço o João Miguel Gouveia, mas considero que não merece ser crucificado como parece quererem fazer.

    Até li que se fala em homicídio por niglegência!.. Certamente sendo cúmplice o Adamastor ou Neptuno, rei dos mares, que enviou a onda

    assassina. Ao que se chegou a respeito de ocorrência tão infeliz, tão triste! Negligência podia-se talvez dizer, se houvesse alguma norma

    estabelecida que não tivesse sido cumprida. Não… foi o entusiasmo, a excitação que o ambiente e expectativa da praxe cria, Desatentos,

    eufóricos, alegres e ótimistas, não dava para maus pensamentos ou cautelas.

    Nunca será esquecida pelos familiares, amigos e por todos que conhecerem esta tragédia, a injustiça existente no desaparecimento

    destes jovens. A mãgoa jámais passará. A indecorosa especulação que é eita sobre o assunto, também não ajuda à tranquilidade de espírito que mães e país necessitam para aceitarem esta fatalidade.Todavia, a conformação é difícil, a dor é grande. Mas as palavras da

    Mãe de uma das vítimas, com desgosto idêntico ao das outras Mães que perderam os filhos, são bem lúcidas e elucidativas da realidade:

    “NÃO TENHO ELEMENTOS PARA ACUSAR NINGUÉM. APENAS POSSO PENSAR QUE TUDO SE TRATOU DE UMA INFELICIDADE, DE UM ACIDENTE, DE SETE JOVENS QUE ESTAVAM NO SÍTIO ERRADO À HORA ERRADA. ACREDITO QUE O PRÓPRIO

    SOBREVIVENTE SEJA, ELE MESMO, UMA VÍTIMA DA SITUAÇÃO E QUE CARREGARÁ PARA SEMPRE O PESO IMENSO E SENTIMENTO DE IMPOTÊNCIA PERANTE A TRAGÉDIA”

    Carlos Patrício Álvares

    ———- Mensagem encaminhada ———-

    De: Carlos Patricio

    Data: 9 de Fevereiro de 2014 às 13:42

    Assunto: ADAMASTOR E NEPTUNO OS VERDADEIROS CULPADOS

    Para: cartas@expresso.impresa.pt

    ADAMASTOR E NEPTUNO OS VERDADEIROS CULPADOS

    As praxes foram uma forma que a mocidade estudantil criou para fomentar os laços de companheirismo e amizade que os estudantes criam durante a sua vida académica. Através delas fazem-se amizades que duram toda a vida. Não devem pois acabar ou serem diabolizadas. Devem,sim, é serem disciplinadas. É conhecida e até normal, a tendência da mocidade para o exagero, para o acto irrefletido, precipitado. E o quase passou no Meco demonstra-o.

    À juventude, tradicionalmente irreverente, impulsiva, imaginativa,ciosa da sua independência, é difícil aceitar a opinião de quem já a

    ela não pertence. É natural que assim seja. Todavia, os funestos acontecimentos do Meco, talvez levem a que, no futuro, essa opinião

    seja aceite e não considerada abusiva intromissão.

    Um pouco de ponderação, as praxes serem submetidas a uma análise prévia por alguém mais atento, mais calculista, já sem a precipitação e entusiasmo dos verdes anos, poderia ter evitado a tragédia. No entanto esta é uma sugestão para o futuro. Não para justificar o que se passou, consequência de falta de análise, precipitação,irreverência, facilitismo, alegria, desejo de experimentar sensações novas, de viver intensamente a vida. Enfim, tudo aquilo que nos caracteriza quando somos novos.

    Compreendo que a dor das famílias, em choque com tal fatalidade,queira arranjar outras explicações para tão traumatizante situação.

    Martirizarem-se, lamentarem o sucedido, o destino, chorarem, é uma forma de algum modo, lembrarem os filhos que perderam, tentar

    conseguir um pouco de consolo. Assim, os entes queridos desaparecidos,continuam vivos na sua memória. Já o procurarem culpados por um descuido que, ao ser aceite por todos, passou a ser coletivo e não individual, só a dor e desgosto sentido, explica e justifica.

    Li o comentario feito a este caso, por uma pessoa que atualmente é Presidente de uma Câmara. Disse que quando estudante se recusara a cumprir a praxe. Sofreu sanções académicas sim, mas não fez o que considerou errado. Não conheço o João Miguel Gouveia, mas considero que não merece ser crucificado como parece quererem fazer.

    Até li que se fala em homicídio por niglegência!.. Certamente sendo cúmplice o Adamastor ou Neptuno, rei dos mares, que enviou a onda

    assassina. Ao que se chegou a respeito de ocorrência tão infeliz, tão triste! Negligência podia-se talvez dizer, se houvesse alguma norma

    estabelecida que não tivesse sido cumprida. Não… foi o entusiasmo, a excitação que o ambiente e expectativa da praxe cria, Desatentos,

    eufóricos, alegres e ótimistas, não dava para maus pensamentos ou cautelas.

    Nunca será esquecida pelos familiares, amigos e por todos que conhecerem esta tragédia, a injustiça existente no desaparecimento

    destes jovens. A mãgoa jámais passará. A indecorosa especulação que é eita sobre o assunto, também não ajuda à tranquilidade de espírito que mães e país necessitam para aceitarem esta fatalidade.Todavia, a conformação é difícil, a dor é grande. Mas as palavras da

    Mãe de uma das vítimas, com desgosto idêntico ao das outras Mães que perderam os filhos, são bem lúcidas e elucidativas da realidade:

    “NÃO TENHO ELEMENTOS PARA ACUSAR NINGUÉM. APENAS POSSO PENSAR QUE TUDO SE TRATOU DE UMA INFELICIDADE, DE UM ACIDENTE, DE SETE JOVENS QUE ESTAVAM NO SÍTIO ERRADO À HORA ERRADA. ACREDITO QUE O PRÓPRIO

    SOBREVIVENTE SEJA, ELE MESMO, UMA VÍTIMA DA SITUAÇÃO E QUE CARREGARÁ PARA SEMPRE O PESO IMENSO E SENTIMENTO DE IMPOTÊNCIA PERANTE A TRAGÉDIA”

    Carlos Patrício Álvares

  2. Pingback: Tragédia do Meco: as televisões e a procura da verdade | VAI E VEM

  3. Sara Vilhena diz:

    Até que enfim que encontro um artigo que vai de encontro ao que acho da suposta reconstituição do que aconteceu na praia do Meco. Mais surpreendida fiquei, por não haver na administração da TVI ninguém idôneo, que veja o ridículo em que se expõem e ainda por cima chamam a isto jornalismo de investigação. Parabéns pelo artigo.

  4. Ant diz:

    penso que este artigo so quer ocultar a realidade que está impresa nos segredos por detras de uma copa. este artigo sim so tem como intento por pó nos olhos daqueles que opinam e defendem o fim das praxes . talvez por ter por detras segredos que podem por em causa toda a possibilidade da praxe continuar a ser considerada uma tradição e ser autorizada. ou sera que as que tiveram a coragem de falar na tvi24 estão agora em risco de sofrerem retaliações da copa?

  5. Eu não teria dito melhor, parabéns pelo artigo, que é assertivo em tudo.

  6. O jornalismo não é da ordem do oracular. Baseia-se em factos e em fontes. Não em lendas ou suposições.

  7. LMR diz:

    Não é líquido que a descrição inserida no tal fórum tenha mesmo sido ficcional. Resta saber isso. Concluir já o oposto é apressado.

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