Os senhores dos milagres

António José Seguro tem razão: está em curso uma das maiores campanhas de propaganda levada a cabo pelo governo. Há semanas que os ministros enchem os noticiários falando de “sucesso”, “milagre”, nova era”, “sinais” “viragem”, construindo uma narrativa que primeiro se estranha mas depois se entranha.

Do ponto de vista comunicacional, pode dizer-se que se trata de uma acção conseguida. O simples facto de o governo e os seus apoiantes e colaboradores repetirem à exaustão o discurso oficial do “sucesso” e do “milagre” bastou para que mesmo os mais descrentes começassem a acreditar que a recessão passou, a economia recuperou e que o pior já passou.

É evidente que o País  não mudou de um dia para o outro e que os portugueses não sentem nas suas vidas os anunciados “sinais positivos” e que para a maioria deles a “retoma” se limita a verem  mais gente nos centros comerciais e nos saldos. Então como é que se explica este ligeiro sopro de ânimo que se apoderou das notícias e se propagou aos cidadãos?

Os psicólogos dirão que faltava ao discurso do governo uma palavra de esperança e de crença num futuro melhor e mais próximo. Essa palavra chegou finalmente ao discurso oficial.  Os portugueses, desejosos de acreditar em alguma coisa aderiram aos “sinais”. Como sempre, salvo raras excepções, os media deram  eco a esses “sinais” – as exportações a subirem, o desemprego a baixar, os juros a descerem, a recessão já foi… Poucos desconstroem este discurso…o papel dos media sempre foi mais de repetir do que de desconstruir.

O governo criou ou aproveitou as oportunidades surgidas para espalhar a mensagem cá dentro e lá fora. Os pseudo-eventos a que temos assistido são ocasiões  para os ministros todos os dias aparecerem  nas televisões, nas rádios e nos jornais. As feiras da alimentação e outras, as conferências tipo The Economist, são momentos de eleição para os governantes brilharem e fazerem a propaganda dos seus sucessos.

Vai ser assim até às eleições, primeiro as europeias, depois as legislativas. Antes disso vamos sair do programa da troika. Com ou sem “cautelar” 17 de Maio será sempre um êxito, porque tem que ser um êxito, a Europa quer que o seja, o governo também e os portugueses estão fartos de desgraças. Vai talvez haver festa no Rossio, no Marquês, no Largo do Caldas ou na S. Caetano.

Vamos ter campanha permanente até 2015. Talvez baixem os impostos, “quem dera”, dirão os portugueses cansados de tanta austeridade, talvez prometam devolver aos  pensionistas parte roubada das suas pensões, talvez os “critérios para os despedimentos, aprovados há dias, sejam metidos na gaveta…talvez.

Nos próximos meses vamos viver em “milagre” permanente.

 

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