Confirma-se: há na RTP um novo formato para Socrates

JRS entrevista SócratesComo era de esperar o espaço de José Sócrates na RTP1 conduzido, no Domingo passado por José Rodrigues dos Santos,  provocou acesa polémica nas redes sociais. Entretanto, José Rodrigues dos Santos dirigiu uma mensagem aos seus seguidores no seu mural do Facebook, em resposta aos comentários que recebeu. Posteriormente, o director de Informação da RTP fez também declarações sobre o programa.

Dos esclarecimentos prestados por ambos, constata-se que, de facto, a RTP não tem uma ideia clara sobre a natureza daquele espaço. Por um lado, o actual director , José Manuel Portugal, (que sucedeu ao  director que criou o espaço e convidou Sócrates, Paulo Ferreira) disse ao Expresso que  “Aquele espaço não é só de comentário, portanto o jornalista que lá está não deve ter uma presença apenas simbólica”.

Por seu turno, José Rodrigues dos Santos, no Facebook, assume que se tratou de uma entrevista de tipo “confrontacional” e que “avisou” José Sócrates num almoço a dois antes do programa, “de que, se encontrasse contradições ou aparentes contradições entre o que diz agora e o que disse e fez no passado, as colocaria frente a frente e olhos nos olhos, sem tergiversações nem subterfúgios, como mandam as regras da minha profissão.”

Confirma-se, assim, a hipótese que levantei no meu post anterior de que o formato do espaço de José Sócrates na RTP1 depende do estilo do jornalista que apresenta o Telejornal de domingo, onde José Sócrates marca presença. Ora, quer a RTP queira quer não, isso representa uma alteração substantiva ao formato anunciado no momento da sua criação pela anterior direcção de Informação.

A RTP tem todo o direito de o fazer e José Sócrates de aceitar a alteração (presume-se que aceitou, como refere José Rodrigues dos Santos, embora as palavras deste não sejam claras, visto que um “aviso” parece mais uma decisão unilateral do que um acordo entre ambos para uma alteração do formato). Mas a RTP deve assumir a alteração e informar disso os telespectadores.

E deve fazê-lo porque mais importante do que saber se a RTP ou José Rodrigues dos Santos mudaram ou não o formato do programa, é o respeito devido aos telespectadores, uma coisa que nos estudos jornalísticos se chama “horizonte de expectativas”.

É que tendo a RTP anunciado que convidara José Sócrates como comentador  para um espaço semanal, os espectadores têm a expectativa de ver  José Sócrates aos domingos  na RTP1 a comentar a actualidade política. Não esperam que José Sócrates seja entrevistado aos domingos. Seria, ou será, certamente para ele, um desafio a que seguramente não se furtará mas não foi isso que foi anunciado pela RTP.

Não está em causa saber se Sócrates deve ser questionado sobre o seu governo. Nada impede que a RTP organize debates e entrevistas moderados por José Rodrigues dos Santos, com José Sócrates ou com outros políticos. Mas aquele espaço é outra coisa e isso devia ser claro para os telespectadores e para a própria RTP e parece que não é, pelo menos para esta última.

A ambiguidade do modelo de políticos-comentadores só podia criar uma nova ambiguidade que é a do jornalista que-umas-vezes-entrevista-outras-vezes- opina-outras-vezes-deixa-falar-o-convidado. É um novo formato criado para Sócrates e para quem vier a seguir.

 

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6 respostas a Confirma-se: há na RTP um novo formato para Socrates

  1. Albano Rocha diz:

    Se me permite, na minha opinião pessoal, só num País como o nosso, é que o anterior Primeiro Ministro, tem direito a tempo de antena para comentar (criticar) o governo que lhe sucedeu. Fez muito bem o JRS; jornalista que se preza não é lambe botas, e até que enfim alguém se digna confrontar o “comentador” o que disse num passado recente; Estou cansado de ouvir políticos (mentirosos) todos iguais: a dizerem hoje uma coisa com a maior das convicções e o seu contrário logo a seguir. E isto serve não só para JS como para todos. É tudo farinha do mesmo saco.

  2. webmaster diz:

    Cara Estrela Serrado, dê-me a liberdade para usar o seu blogue para exprimir a minha opinião. Blogue que gosto muito de seguir. Efectivamente quando nos sentamos à frente de um jornalista há apenas uma acção: a de responder a perguntas; o objectivo de qualquer género jornalístico com interacção (entrevista, debate etc.) é o de ficar informado sobre um determinado assunto e sobre o informador. Enfim, conhecer a mensagem (as políticas) e o meio (o político) num todo, como melhor que ninguém saberá disso. É esse conjunto que dá “a imagem completa” ou a mais completa possível. Um jornalista (deve) perguntar em função de uma investigação, de um contexto diverso com compila. Até agora nada de novo… Quando oferecemos a nossa atenção a um político, essa atenção tem um peso. O jornalismo serve para isso, para saber quanto pesa o informador e a informação que nos está a entrar pelos ouvidos. “Valerá a pena ouvir/acreditar neste tipo? – pensamos ao ver a TV”. O resto cabe ao entrevistado. (Um aparte, fugir a uma questão, chutar para canto é um prejuízo para a nossa inteligência, JS é um especialista em fugir do assunto… eu não gosto disso, é legítimo fazê-lo talvez…. mas não abona nada quem está a ver e a ouvir…). O programa denomina-se “A opinião de José Sócrates”, então se é um programa essencialmente opiniativo era preferível adoptar, por exemplo, o formato do programa de José Pacheco Pereira na SIC Notícias, sem moderador, onde o autor/comentador confronta a câmara e dá a sua opinião – um formato que se diga de passagem é teoricamente o mais parecido a um artigo de opinião de um jornal. O que faz o programa “A opinião de JRS” ser jornalístico é estar à frente de um jornalista, apenas isso. Daí a obrigação de JRS esperar perguntas “confrontacionais”. Concordo com JRS, um jornalista tem sempre a obrigação de perguntar, cabe ao entrevistado por tudo em pratos limpos de forma cristalina, ser político é isso também… Mais, a informação da RTP nunca devia ter permitido tal “formato simpático” um franco alijeirar do jornalismo. Mais do que estilos pessoais, há uma base que os jornalista nunca podem descurar, sejam eles de estilo manso ou agressivo: fazer perguntas, sejam elas incómodas (quem deve não teme).
    Mas também é verdade que aquele ex-primeiro-ministro, um dos poucos homens que governou mais tempo o nosso país e um partido, que desde 1987 foi: deputado, secretário de estado, ministro, primeiro-ministro, o governante que assumiu a presidência “europeia” no momento em que o Tratado de Lisboa foi assinado, e que foi secretário-geral do partido, e que por natural inerência do cargo, escolheu e nomeou em consciência dezenas e dezenas de homens e mulheres para gerir este país, seja no âmbito de chefe de estado ou de governança partidária NÃO PODE estar à espera que um jornalista NÃO lhe faça perguntas que não gosta ou que “não está preparado”:.. Realmente a Estrela Serrano tem toda a razão: o “que-umas-vezes-entrevista-outras-vezes- opina-outras-vezes-deixa-falar-o-convidado” está a enfraquecer o jornalismo…

  3. HMiranda diz:

    Estamos fartos desse modelo jornalístico do Comentário. Chega deste modelo em todos os canais de que serve tanta opinião, mais opinião mais opinião. A Entrevista é o melhor modelo para Sócrates. Alguém que foi vítima de um assassinato de carácter sem precendentes na história da política portuguesa, com certeza que não se importa nada. Esteve lá muito bem e estará sempre, mesmo que às vezes desprevenido ainda assim torna-se muito mais visivel a sua autenticidade e a firmeza das suas convicções. O José Rodrigues dos Santos voltou a colocar a sua impressão digital já que é mesmo um grande jornalista. É muito mais importante o carácter dos homens e as suas convicções do as artimanhas políticas e jornalísticas e se as há ou houve…..o resultado foi muito bom de qualquer forma.

  4. Filomena Marta Silva diz:

    Pois por mim falo e não dispenso os comentários do Sr Socrates, é a única pessoa que fala bem e diz toda a verdade. Espero que a RTP não seja tão cretina ao ponto de tirar este senhor de lá.

  5. João Ribeiro diz:

    E tudo isto independentemente da formação profissional do entrevistador. Jornalista, estagiário da BBC ou escritor…

  6. Por mim falo e dispenso qq programa, entrevista ou comentário de José Sócrates, acho q deve desaparecer.

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