O compromisso de um jornalista é, antes de mais, com os seus públicos

Foi , a meu ver, ética e deontologicamente  correcta a posição dos jornalistas que, tendo sido chamados ao Ministério das Finanças para um briefing onde lhes seriam fornecidas informações sobre  a convergência de pensões – informações essas que, segundo lhes foi solicitado e eles cumpriram,  não deviam ser atribuídas a nenhum responsável mas apenas a  “fonte  do Ministério das Finanças” – foram depois acusados pelo porta-voz do conselho de ministros de “manipulação de informação” perante o silêncio da citada fonte.

Como não podia deixar de ser, sob pena de perda de credibilidade, os órgãos de comunicação social presentes no briefing tomaram posição e alguns deles divulgaram o nome da fonte: o secretário de Estado da Administração Pública.

Público caso CES e directoresO sigilo das fontes é uma prerrogativa do jornalismo, essencial para que alguém (uma fonte) possa denunciar situações graves sem correr o risco de, por isso, ser penalizada.

Ao publicar uma informação a que teve acesso sem a atribuir a uma fonte, o jornalista assume a responsabilidade dessa informação, a qual lhe advém da confiança que depositou na fonte. Se a fonte o enganou e traíu a sua confiança dando-lhe uma informação errada, ele tem duas hipóteses: ou denuncia o engano de que foi alvo e esclarece os seus leitores, identificando quem o enganou, ou cala-se e mantém a informação errada, minando a sua credibilidade e a do órgão em que trabalha, perante os seus públicos.

A credibilidade de um jornalista e de um órgão de informação é a base primeira da sua legitimidade. A lealdade do jornalista para com as suas fontes, por muito importante que seja, e é, não pode sobrepôr-se à lealdade para com os seus públicos. Omitir um esclarecimento ou manter uma informação errada para não perder uma fonte é trair os seus públicos.

De acordo com os dados conhecidos, os jornalistas presentes no briefing do Ministério das Finanças cumpriram  as regras definidas pelo próprio  Ministério. A informação foi publicada  sem nome, tal como havia sido  combinado entre as partes. Porém, ficou a saber-se que enquanto  os jornalistas respeitaram o acordo, o mesmo não aconteceu com a fonte do Ministério das Finanças.

De facto, ao verificar que os jornalistas estavam a ser injustamente acusados de “manipulação” e “especulação” pelo primeiro-ministro e pelo ministro da Presidência, a fonte, leia-se, o Secretário de Estado da Administração Pública, deveria ter imediata e publicamente esclarecido que os jornalistas se limitaram a cumprir o acordo por si definido, assumindo a  responsabilidade pela situação sem esperar que os jornalistas o identificassem como a fonte.

Percebe-se que muitos jornalistas preservem com denodo as suas fontes, calando mesmo algumas tentativas, consumadas ou não, de engano e manipulação. O receio de perder uma fonte bem colocada leva, algumas vezes, a que o jornalista cale e assuma  erros de que foi alvo. Mas se é verdade que o jornalista precisa de fontes, não é menos verdade que precisa sobretudo dos cidadãos que o lêem, ouvem e vêem.

É que uma vez perdida a credibilidade, um jornalista dificilmente a recupera. Mas se perder uma fonte logo outra fonte surgirá.

Uma nota de estranheza vai ainda para o facto de um secretário de Estado do ministério das Finanças ter podido, sem consequências, divulgar informação de tão elevada sensibilidade e alcance sem conhecimento e autorização da sua ministra ou de qualquer outro membro do governo.

Alguma coisa está ainda por saber-se ou então o governo está  à deriva.

Mas há ainda uma nota a reter: informação tão sensível e polémica, a ponto de fazer manchete em vários jornais, não devia ser negociada e aceite a troco da não identificação da fonte que a forneceu.

 

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Uma resposta a O compromisso de um jornalista é, antes de mais, com os seus públicos

  1. cristofams diz:

    realmente esta coligação parece que anda a caminhar para o prec. Alem de jotinhas ainda são politicamente irresponsaveis.

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