Alguma coisa mexeu no comentário político televisivo depois do episódio Rodrigues dos Santos

Não se esgotaram ainda os comentários à prestação de José Rodrigues dos Santos no espaço de comentário de José Sócrates, no domingo passado. Marcelo Rebelo de Sousa, a pretexto de uma pergunta de um telespectador, achou que Sócrates se saíu bem e que para entrevistar um ex-primeiro-ministro é preciso estar muito bem preparado, dando a entender que isso não aconteceu com Rodrigues dos Santos.

É curioso notar que alguma coisa mexeu no comentário político televisivo depois deste episódio. No comentário de José Sócrates, que esta semana foi ontem, sábado, João Adelino Faria teve dificuldade em encontrar o registo certo, o que não é habitual nele, apresentador seguro que costuma ser. Interrompendo frequentemente a exposição de Sócrates, tentou encontrar o registo certo entre o estilo confrontacional de Rodrigues dos Santos e o estilo cordato de outros apresentadores que nas televisões privadas contracenam com Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix ou Francisco Louçã e, na própria RTP, com Morais Sarmento.

A RTP criou um problema para ela própria e Rodrigues dos Santos vai ter que fazer opções: ou mantém o estilo “confrontacional” com Sócrates e esgota a matéria em poucas semanas; ou muda de “entrevistado” a cada semana, ou a RTP muda de apresentador ao domingo.

Argumentar, como fizeram alguns, que é natural e inevitável confrontar Sócrates com declarações e decisões que assumiu enquanto primeiro-ministro não justifica que ex-ministros das Finanças, como Ferreira Leite e Bagão Félix, e ex-líderes partidários como Marcelo, Marques Mendes e Francisco Louçã, não seja igualmente confrontados com o seu passado político.

O problema não está, pois, em Sócrates. Está no modelo, aliás, único na Europa. A perversidade do formato reside no papel dos jornalistas e não no papel dos comentadores que, convidados e pagos (à excepção de Sócrates) para opinarem, cumprem o contrato… opinando.

Aos jornalistas compete, noticiar, perguntar, investigar, explicar, interpretar, enquadrar… não compete fazerem de mestres de cerimónias.

Talvez o modelo de palestras possa resolver o imbróglio. É menos televisivo mas mais coerente. Poucos resistiriam, diga-se.

 

 

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3 respostas a Alguma coisa mexeu no comentário político televisivo depois do episódio Rodrigues dos Santos

  1. graciete oliveira diz:

    No último comentário do Eng. Sócrates o apresentador tentou atrapalhá-lo, cortando-lhe as respostas com outras perguntas. É a voz do dono, dos actuais governantes, os esganados do pote que destruíram este país e têm os seus boys em todos os lugares que importam, numa prática fascista..Gostaria de ver aplicar o mesmo sistema a outros comentadores, particularmente a Morais Sarmento a quem um dia ouvi na TV que os pobres o que tinham era inveja dos ricos, o que dá uma ideia do tipo
    de político que ele é…

  2. jose neves diz:

    Cara,
    Mexeu tanto que até surgiu alguém na blogosfera que, segundo a sua visão, Sócrates se tornou “abaixo de medíocre” por, na sua qualidade de PM e em funções de Estado, ter lidado e negociado com durão barroso e agora, no seu recém-comentário, ter a ousadia de o apelidar de medíocre quando antes, diz o bloguista, era um servil do dito na UE.
    E, segundo tal lógica, todos que aceitam e dialogam democraticamente com o medíocre actual governo tornam-se, automaticamente, abaixo de medíocres e sem autoridade crítica acerca de nada.
    Que belo conceito civilizacional.

  3. J. Madeira diz:

    Verdadeiros Jornalistas há poucos, hoje em dia, como diz o B.B., existem
    muitos profissionais de comunicação social e, outros extipêndiados!
    Confirma-se que, desde a mudança na direção de informação na RTP se
    alterou o comportamento dos “pivots” que acompanhavam o José Sócra-
    tes no seu espaço de comentário até a Cristina Esteves que, tinha come-
    çado num registo equilibrado e interventivo, últimamente, quase não dei-
    xava o comentador concluir os raciocínios, com intervenções atabalhoa-
    das e desconexas!
    Ontem, nem houve o cuidado de anunciar préviamente a antecipação do
    programa, foi dito em cima da hora, isto só pode ter uma leitura, o “pivote”
    de serviço fez uma “borrada” ao citar a entrevista do Durão Borroso, só
    para se fixar na quase bancarrota e nos 300 milhões, revelando não do-
    minar o assunto prestou-se a fazer de “papagaio”, deixando assuntos ma-
    is importantes sem uma opinião de comentador!!!

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