Mais uma borrada na comunicação do governo

Expresso saída limpaO Expresso teve acesso  a um “documento confidencial do Governo” no qual o executivo expõe o “argumentário em defesa da solução que Pedro Passos Coelho se viu, contra a sua vontade inicial, forçado a anunciar ao País”. Segundo o semanário, o documento “foi enviado a alguns membros do governo e a comentadores“.

De acordo com a notícia, ninguém assume oficialmente a autoria do documento mas o Expresso sabe que “foi enviado aos destinatários pelo  gabinete do ministro-adjunto, Miguel Poiares Maduro”.

A distribuição de um “documento confidencial” a “comentadores”  constitui mais uma originalidade portuguesa e representa, para dizer o menos, uma perversão das regras da comunicação institucional.

Privilegiar um órgão de comunicação social dando-lhe em primeira mão uma informação é prática habitual.  Não sendo deontológica ou éticamente recomendável vinda de entidades públicas é, contudo, geralmente aceite pelos jornalistas, uma vez que foram ou esperam vir a ser contemplados com outros “exclusivos” .

Porém, o governo privilegiar “comentadores”, enviando-lhes “um documentos confidencial” que deu a um jornal (e só a um) e ainda por cima informar disso o próprio jornal a quem deu a exclusividade do documento, é algo impensável.

É fácil perceber quem terão sido os “comentadores” privilegiados. Aliás, esta noite, no seu espaço semanal na SIC, Marques Mendes só faltou dizer que esteve debaixo da mesa ou escondido no armário da sala da última reunião da troika, tal o número de pormenores que forneceu sobre a dita reunião: “agressiva, violenta e dura no conteúdo,  separação litigiosa”, etc., etc.,  com exemplos concretos sobre o que a troika queria e o que não queria e onde o governo cedeu e não cedeu.

O ministro Poiares Maduro veio mais tarde desmentir, sem desmentir, a existência de um “documento confidencial”, dando a entender que se tratou de uma reprodução do discurso do primeiro-ministro na conferência do Diário Económico. O ministro deve ter percebido  a “borrada” que o seu gabinete fez, mas a explicação não convenceu.

Pasma-se ao ver o grau de amadorismo da estratégia comunicacional do governo. Nem se percebe como é que o alegado comunicador por excelência, outrora  especialiata em  soundbites para títulos de jornal, Paulo Portas, não toma ele próprio em mãos a comunicação do governo.  É que cenas destas são demasiado deprimentes para um País já de si deprimido.

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