O PS na encruzilhada: será que a lógica aparelhística vence a evidência dos factos?

Foto de João Xavier

Foto de João Xavier

Esqueçamos por momentos o “turbilhão” no PS. Esqueçamos, também por instantes, a esperança da coligação no flop eleitoral do PS (digam o que disserem alguns dirigentes do PS, o resultado eleitoral foi um flop).

Esqueçamos isso e outras coisas  e detenhamo-nos, apenas por momentos, no seguinte:

1. Não basta hoje aos partidos disporem de máquinas “oleadas” para atrair eleitores e ganhar eleições. Não basta também terem um programa de governo que, já se viu, serve de pouco. Também não basta  controlarem as famosas distritais que  asseguram a eleição do  líder que lhes garanta  recompensas em troca da militância local –  lugares em listas para as autarquias ou para o parlamento, ou outros onde se faz “carreira” e se vai ganhando poder e influência. Chega a líder do partido quem agrada às “distritais”. Dá trabalho, muitos fins de semana a calcorrear vilas e aldeias, a visitar os “camaradas” e a “conhecer” o País. Seguro, como Passos, chegaram a líderes dos seus partidos porque cumpriram essa via sacra. Cada um teve o seu “Marco António” que preparou o terreno para o líder e depois exigiu, no mínimo, chegar à direcção do partido e  a um lugar no governo ou nalguma instituição pública.

É esta a lógica reinante e não se vê como poderá ser mudada. António Costa poderá estar “disponível” para o “chamamento” de que está a ser alvo pelos socialistas. Mas necessita de tempo e de vocação para ganhar o partido.

2. A segunda questão a colocar decorre da primeira: uma vez chegado ao poder o líder é cercado pelo “aparelho”. Ainda que, num excepcional rasgo de clarividência reconheça a sua fraqueza para levar o partido a bom porto, o “aparelho” não o deixará discutir a liderança. O “aparelho” defende sobretudo as suas próprias posições no poder interno conquistadas com a liderança vigente. A situação fica ainda mais complicada quando se avizinham eleições. É que criticar o líder implica poder não entrar nas listas de deputados e ficar fora dos órgãos do poder partidário. Isso é bem visível no PS desde domingo, com o alinhamento de certas figuras  com o discurso do líder sobre a “estrondosa vitória do PS” nestas europeias. Vidé Maria de Belém e Álvaro Beleza, a criticarem “quem desvaloriza a vitória do PS”.

3. Resta dizer que nas sociedades contemporâneas marcadas pelo primado da imagem e da comunicação, não basta ser uma boa pessoa, trabalhadora, dialogante, honesta  sensível, simpática e afectuosa para dirigir um partido e sobretudo o País. António José Seguro é tudo isso, diria, mas não chega. Uma liderança moderna necessita de muito mais. Necessita de carisma,  coerência, frontalidade, cultura, visão política, força intrínseca, capacidade de “arrasar” pelo argumento e pela segurança que imprime às suas posições. Necessita de ser firme, de que quando o ouçamos ele nos convença e nos leva a segui-lo, com convicção e não apenas porque ele é o líder do momento do partido com quem nos identificamos.

4. Não sei se o PS está consciente de que necessita de um líder capaz de em 2015 arrasar pelo voto uma coligação desastrosa que levou o País à pobreza e à desesperança. O tempo escasseia e no domingo passado foi perdida uma oportunidade histórica de o conseguir.

O “aparelho” do PS está contente com a vitória alcançada?  Triste contentamento, triste consolo. O PS precisa de mais  ambição.

António Costa, se for ele a “chegar-se à frente”, não pode recuar outra vez.

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Uma resposta a O PS na encruzilhada: será que a lógica aparelhística vence a evidência dos factos?

  1. J. Madeira diz:

    Muito bem analisado mas, convém dizer aos “aparelhistas” que vivem do PS que,
    não se pode tapar o Sol com uma peneira! Tem sido evidente que, apesar dos
    resultados eleitorais alcançados, a liderança de Seguro e a sua equipa ao fim
    de três anos não consegue mostrar uma alternativa forte e credível!
    Pelo contrário, muitos são os “tiros” dados nos próprios pés, seja nas eleições
    autárquicas com algumas das escolhas pessoais do lider, durante a campanha
    para a Europa apresentar um conjunto de 80 medidas no estilo de programa de
    governo! Não conseguem “agarrar” os portugueses com as suas idéias avulsas e,
    antes que seja tarde outra liderança deve ser encontrada … até porque, dadas
    as últimas sondagens, muito provávelmente as legislativas devem ser antecipadas!!!

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