A desfiguração do líder

Seguro TVIA entrevista de António José Seguro à TVI foi  importante para uma melhor compreensão do que está em causa na actual disputa pela liderança do PS. Seguro até nem começou mal, defendendo a  legitimidade da sua liderança, as vitórias alcançadas nas duas últimas eleições e as alterações que pretende propôr para o partido e para o País.

Porém, à medida que Judite de Sousa o “apertava”, Seguro crescia em irritação, atropelando as perguntas da jornalista e as suas próprias respostas, cada vez mais irritado e inconformado  com a “ousadia” de António Costa de lhe disputar a liderança.

Os argumentos de Seguro possuem contudo muitas fragilidades. Desde logo, a acusação a Costa de que teve duas oportunidades para se candidatar à liderança do PS e não avançou. Precisamente, isso mostra que Seguro teve  oportunidade de construir a sua liderança, unir o partido e impôr-se ao País. Costa ajudou-o nesse esforço quando desistiu de avançar e aceitou assinar com ele o “documento de Coimbra“. Seguro teve tempo de fazer as propostas para o partido e para o País que agora faz à pressa e como arma de arremesso contra António Costa.

Seguro controla, é certo, as  estruturas locais e os órgãos dirigentes do partido mas não tem consigo os militantes anónimos nem aqueles que, não se revendo nos partidos existentes, apoiariam um PS diferente, com um líder capaz de os galvanizar. Os magros resultados eleitorais, que as sondagens vinham anunciando, aí estão a prová-lo.

Também a invocação da sua  “legitimidade” como líder do partido como argumento para não aceitar a marcação de um congresso extraordinário, carece de sentido. De facto, como se explica então que Seguro peça a demissão do governo, cuja legitimidade não pode ser posta em causa apesar da derrota eleitoral que sofreu?

Seguro não reconhece que lhe faltam as características de um líder vencedor, que muitos militantes e independentes encontram em António Costa.  Percebe-se, aliás, que muitos dos que o seguem no partido  o fazem mais por coerência do que por convicção. Como acreditar que Francisco Assis, Alberto Martins, Carlos Zorrinho, Ana Gomes, (para citar apenas os que se pronunciaram a favor de Seguro) que antes estavam com Costa, ou com os que hoje apoiam Costa, considerem que a liderança de Seguro dará ao PS, nos poucos meses que faltam para as legislativas, o élan que não lhe deu em 3 anos de liderança?

Um partido não é uma associação de amigos que escolhem um líder por solidariedade, compaixão ou gratidão. Um partido é uma organização de pessoas em torno de ideias, programas e objectivos comuns, com uma visão para o País e com capacidade e ambição para a realizarem. Num partido não há lugar a “coitadinhos”.

Nesta contenda, Seguro não foi capaz de se elevar à verdadeira condição de líder, isto é, não foi capaz de, com humildade e transparência dizer ao seu opositor e aos seus pares: “Vamos debater tudo e escolher o melhor de nós dois”. Aí teria talvez ganho o apoio dos que ainda acreditavam que ele seria capaz de uma transfiguração para um estádio superior da liderança. Mas o que tivemos foi a desfiguração do líder.

 

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2 respostas a A desfiguração do líder

  1. Mas onde se viu seguro (assim, com minúscula) ser um líder !?… Temo que a alternativa António Costa apenas nos ponha a possibilidade de trocar seis por meia dúzia, mas há que tentar. Não desata o nó institucional do país que nos deixa mergulhados em permanente deficite democrático, mas pode ser uma pedrada no charco. Se fizer uma ondinha, já vale a pena. Suponho que os tsunami começam com uma ….

  2. José Carvalho diz:

    O seu post é muito interessante e pertinente. No entanto, será muito decepcionante se a luta se resumir, afinal, a uma questão de legitimidade de luta ( manutenção) pela liderança.
    Será que o problema do PS, e da social-democracia em geral, é apenas uma questão de estádios de liderança partidária ?

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