Percalços do jornalismo em directo

Cavaco a desmaiarDesconheço que tipo de informação possuíam os jornalistas que cobriam em directo as cerimónias militares do 10 de Junho, na Guarda, para dizerem que o desmaio do Presidente, ocorrido enquanto lia o discurso, está relacionado com os protestos que acompanharam a cerimónia e se faziam ouvir no momento em que o Presidente se “sentiu mal”.

Trata-se de uma afirmação gratuita, não fundamentada e irresponsável.

É certo que uma reportagem emitida em directo contém riscos, na medida em que muitas vezes o repórter é levado a preencher tempos mortos, emitindo palpites e impressões como se fossem factos, criando percepções falsas e erradas sobre o acontecimento que é suposto reportar, por vezes difíceis de corrigir.

Relacionar o desmaio do Presidente com o ruído dos  protestos que o terão levado a elevar a voz na leitura do discurso,  estabelecendo uma relação de causa e efeito entre as duas situações, como fez a RTP, pode corresponder a uma percepção da jornalista  mas necessitaria de ser confirmada antes de emitida. Também a SIC e a TVI estabeleceram uma relação directa entre os protestos e a “indisposição” do Presidente, talvez  “contaminadas” pela RTP, fenómeno frequente no chamado “pack journalism”.

O incidente daria, aliás, lugar a outros comentários que revelam alguma impreparação dos repórteres para reagirem em directo a acontecimentos inesperados. Na TVI, o pivot  em estúdio dizia, às tantas, que era uma situação um pouco “caricata” o Presidente ter sido socorrido pelo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) numa cerimónia militar. E uma das jornalistas que se encontrava perto do local onde o Presidente era assistido, descrevia a cena, vista através “dos arbustos”, do presidente “estendido no chão” sinal (para ela) de que a situação “era mais grave do que à primeira vista parecia”.

Trata-se de comentários pouco rigorosos e eticamente reprováveis, que não encontram suporte em qualquer informação médica ou outra que pudesse ter sido apurada  naquele momento, uma vez que esses comentários foram produzidos imediatamente após o desmaio do Presidente.

Também o comunicado distribuído à imprensa pelo major-general médico da Força Aérea, que assistiu o Presidente no local,  de que Cavaco Silva “sentiu uma reação vagal, da qual recuperou rapidamente, nunca tendo perdido a consciência e sempre manifestou intenção de concluir o seu discurso“, padece de excesso de zelo, além de que a expressão “reacção vagal” não era propriamente de decifração imediata.

Pode dizer-se que ao “fanico” do Presidente se juntou um “fanico”  do jornalismo em directo.

(A fotografia é de Paulo Novais, Lusa)

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7 respostas a Percalços do jornalismo em directo

  1. Pedro Lourenço diz:

    Achei o trabalho jornalístico apropriado e não concordo com as criticas, obviamente que as circunstancias não são fáceis de gerir e, embora a critica pareça mais de alguém se sentiu constrangido por ver o “seu querido Presidente” no qual provavelmente votou, naquela débil situação, mais do que uma critica sincera ao jornalismo.

  2. Obrigada pelo reparo, a foto foi retirada de uma televisão. Tentei agora pesquisar o autor e verifico que é de Paulo Novais, da Lusa, já reparei a falta..

  3. Tenho notado que há mais jornalistas do que noticias !

  4. Mat diz:

    A jornalista da RTPque fez a cobertura das cerimónias do 10 de Junho não é só uma editora experiente. É editora geral, isto é, chefe de todos os editores/coordenadores.

  5. Andre Kosters diz:

    A fotografia não tem autor?

  6. Caro Filipe, o essencial é que as chefias enviem para estes acontecimentos pessoas preparadas e é estranho (para mim) que no caso da RTP, a jornalista seja uma editora experiente – a Luísa Bastos. No caso da TVI, do pivot não sei o nome nem da repórter. Já o Paulo Magalhães fez um trabalho impecável.

  7. Filipe P. diz:

    Cara Estrela, convinha por nomes aos jornalistas em causa até por nem tudo é “pack journalism”, ou devem ser rotulados como tal…

    Quanto às percepções de jornalistas, é também o que dá certos “pseudo-chefes” que se auto-nomeiam só para os especiais e grandes eventos e depois não têm tarimba, experiência, conhecimento de causa, etc., mas querem ser cabeça de cartaz

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