Despedimentos na Controlinveste: porquê tanto silêncio?

Ser despedido  é talvez das coisas mais revoltantes que podem acontecer a uma pessoa. Ser despedido sem saber porquê, agrava o sentimento de revolta. Mas ser despedido e saber que foi despedido sem critério ultrapassa o sentimento de revolta e  fica a ser uma coisa hedionda.

Em vão aguardei que fossem dadas a conhecer informações detalhadas sobre o despedimento de 160 trabalhadores do grupo Controlinveste,  64 dos quais jornalistas, desde logo, quais os critérios para a escolha daqueles a quem despedir, quem são e a que empresas do grupo pertencem, que consequências terão esses despedimentos na qualidade do trabalho jornalístico, enfim, alguma coisa que ajudasse a perceber tamanha razia. Nem o Sindicato dos Jornalistas conhece detalhes da decisão.

A Controlinveste é um grupo de comunicação social privado, que detém o mais antigo e prestigiado diário português em circulação – o Diário de Notícias – para além de outro importante título como o “Jornal de Notícias” e de uma rádio – a TSF – que é hoje uma rádio de referência no País.

A natureza do seu core business – o jornalismo – deveria obrigar os  responsáveis da Controlinveste (como de outros grupos de media) a  uma total transparência em decisões que se repercutem no trabalho jornalístico e na informação que chega aos cidadãos, ainda que,  como o despedimento agora anunciado, surjam como  medidas de gestão, eufemisticamente chamadas “reestruturação”.

Os grupos de comunicação que detêm  empresas jornalísticas lidam com um bem público que é também um poder simbólico, conferido a um grupo profissional cuja independência e autonomia face a todos os poderes, incluindo os proprietários das empresas e dos grupos para os quais trabalham, é condição e garantia de uma sã democracia.

O quadro legal que enquadra o jornalismo  confere aos seus profissionais um estatuto que os diferencia da grande maioria das profissões. desde logo, o direito de objecção de consciência, a garantia do segredo profissional e um código deontológico que os obriga perante os seus públicos.

O jornalismo constrói realidades, influencia visões do mundo, produz efeitos nas escolhas dos cidadãos, no seu dia a dia e em momentos cruciais da vida de um país. Uma empresa jornalística não pode pois ser gerida como uma fábrica de produção em série (mesmo nessas os despedimentos colectivos, a eito, são sempre inaceitáveis).

Se a administração da Controlinveste considera dispensável informar os portugueses, nomeadamente os leitores, ouvintes e telespectadores das suas empresas  sobre os critérios que orientaram a escolha de quem fica e de quem é despedido, que ao menos o façam os directores das publicações abrangidas. O compromisso ético e o contrato de lealdade com os seus públicos também passa por aí.

 

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2 respostas a Despedimentos na Controlinveste: porquê tanto silêncio?

  1. Pingback: Ainda os despedimentos na Controlinveste | VAI E VEM

  2. J. Madeira diz:

    As administrações de uma forma geral procuram o caminho mais rápido para
    atingir os seus objectivos! Esta des-governo tem procurado destruir toda a
    regulamentação sobre as relações laborais, por forma a dar maior flexibilidade
    ao mercado de trabalho … dizem eles! Embora tendo um estatuto especial os
    jornalistas estão inseridos laboralmente em empresas que, procuram o lucro
    logo, dadas as baixas indminizações já fixadas talvez o silêncio seja uma forma
    de melhor negociar a saída! Hoje em dia há poucos jornalistas segundo, vozes
    insuspeitas são mais os “extipêndiados” ou profissionais de comunicação!!!

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