Ronaldo não tinha alternativa senão alimentar a loucura alimentada pelos media e a esperança de que bastava a sua presença na selecção e no campo para Portugal ganhar. Não sei se as marcas que o patrocinam e a própria selecção o obrigaram a manter o discurso de que estava, primeiro a 99,9% e depois a 10o%. Se Ronaldo admitisse que não estava a 100% no primeiro jogo, cairia o céu em cima dele.
Também não sei se a cena do treino aberto em que Ronaldo apareceu de gelo no joelho, (tão criticada por Mourinho) foi pensada para baixar a pressão. Mas a verdade é que baixou, apesar dos seus companheiros de equipa terem surgido a dizer que todos precisam de gelo após cada jogo.
Seja como for, os repórteres que andaram a endeusar “o melhor jogador do mundo” deviam saber que a insistência em falar de Ronaldo como alguém quase imbatível, transcendente e único, criaria nas grandes massas (pelo menos em Portugal mas também no Brasil, como se viu) expectativas exageradas que dificilmente se realizariam porque, de facto, Ronaldo não é a selecção nem pode carregar às costas a selecção.
Esses exageros acabariam por fazer de Ronaldo um dos bodes expiatórios de todos os fracassos que Portugal veio a ter, além de serem lidos como uma atitude de arrogância e superioridade. Isso mesmo ficou patente na impertinência do treinador dos EUA quando afirmou que a sua equipa iria “pôr Ronaldo no seu lugar” e Portugal também. Não pôs mas também não se ficou a rir com o empate.
Eis então que repórteres e comentadores ficaram admirados e agastados quando Ronaldo veio dizer o que cabia aos repórteres e aos comentadores terem visto e dito muito antes. Disse Ronaldo: “Seria mentir da minha parte se dissesse que éramos uma seleção de top. Temos limitações, lesões, o Pepe, o Coentrão… Isso limita-nos bastante. Temos uma equipa limitadíssima. Sem estar ao melhor nível, não conseguimos competir com as equipas de top”,
Ronaldo foi criticado por ter sido sincero e humilde. Muitos repórteres e comentadores não gostaram porque ele contrariou as visões gloriosas que eles andaram semanas a propagar sobre a selecção portuguesa. Pelos vistos, não sabiam do que falavam ou sabiam mas não quiseram dizer. Não sei o que é pior.
É pena que o jornalismo desportivo não seja capaz de um maior distanciamento face aos acontecimentos que relata.