“As primárias são uma falsa boa-ideia”

Convenção do PS [LUSA]

Concordo com este artigo do le Monde, sobre as eleições primárias em França, escrito em 2011: “as primárias são uma falsa boa ideia“. Se isto é verdade em França nas primárias para a escolha do candidato presidencial do partido socialista francês, ou em Itália para a eleição do líder do Partido Democrata, em Portugal as primárias para a escolha de um “candidato a primeiro-ministro” não fazem, a meu ver, qualquer sentido.

Desde logo, pelo facto de em Portugal não existirem eleições para primeiro-ministro mas sim eleições legislativas  para a Assembleia da República. Os portugueses não votam num primeiro-ministro, votam num partido, independentemente de as campanhas eleitorais serem quase sempre personalizadas na figura dos candidatos.

De acordo com a Constituição da República Portuguesa cabe ao Presidente da República “nomear o primeiro-ministro, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais”. Em teoria, o Presidente pode recusar nomear o primeiro-ministro indicado pelo partido vencedor das eleições.

De facto, a ideia das primárias é uma americanização do processo  político português feito à pressa e sem uma reflexão prévia da sua adaptabilidade ao contexto político e cultural do País. Poderiam ter  sentido para a escolha do candidato presidencial de um partido ou até do candidato a líder, em condições devidamente reflectidas e ponderadas.

De facto, independentemente das trapalhadas legais e estatutárias que o processo levanta no seio do PS, as primárias colocam muitas questões relativas ao universo eleitoral e ao controle dos chamados “simpatizantes”. Além de que a introdução das primárias questiona o envolvimento e o comprometimento dos militantes anónimos que se interrogarão sobre o sentido que terá a sua pertença ao partido.

Os partidos necessitam, sem dúvida, de rever a sua organização e o seu funcionamento, aproximando-se dos cidadãos e afastando-se das lógicas aparelhísticas que são hoje a sua marca de água. Mas essas mudanças não podem ser feitas sob pressão e com o voluntarismo com que o PS resolveu marcar estas primárias.

Custa a crer que um partido com a história e as responsabilidades do PS não seja capaz de,  encontrar uma solução que o tire do pântano em que caíu, com bom-senso, inteligência, realismo, e sentido do que é o interesse nacional.

Será que dirigentes que apoiam o secretário-geral como Francisco Assis, Alberto Martins, Carlos Zorrinho, entre outros, conhecidos pelo seu bom senso e dedicação ao partido e à democracia não conseguem convencer a direcção do PS de que o caminho escolhido está a minar  profundamente a credibilidade do partido? Ou a marca que também os toca de “tralha socrática” está a tolher-lhe os movimentos?

Resta esperar que Jorge Coelho, o organizador das “primárias” ponha ordem na casa. Quem sabe ele não encontrará uma solução que evite o descalabro total?

 

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3 respostas a “As primárias são uma falsa boa-ideia”

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