O BES e os jornalistas

Foto Expresso diário

Foto Expresso diário

A situação no Grupo Espírito Santo não é só um case study sobre o poder financeiro e as suas relações com o poder político, como este documentário mostra eloquentemente. É também um case study sobre o jornalismo e a sua contribuição para a manutenção do status quo.

De facto, é interessante seguir não apenas as notícias mais factuais sobre os acontecimentos  no BES e perscrutar as suas origens – o estudo das relações entre os jornalistas e as suas fontes é um capítulo fundamental para compreender as notícias – mas sobretudo acompanhar os editoriais e outros espaços de opinião dedicados aos BES, da autoria de jornalistas.

Depois de anos de silêncio por desconhecimento ou “respeitinho” aos “donos de Portugal”, em que, como reconheceu Paulo Baldaia, no DN,  pouco se soube sobre o que verdadeiramente se passava no BES,  os media “descobrem” que afinal os banqueiros são em muitos casos gente pouco recomendável.  Mesmo assim, alguns ainda lhes dão o benefício da dúvida, senão a eles pelo menos aos seus putativos sucessores. Pode dizer-se que apesar do que já se sabe (calcula-se que seja ainda apenas a ponta do iceberg) Ricardo Salgado ainda tem entre os jornalistas alguns “defensores”.

E é assim que a sucessão de Salgado divide o director do Diário Económico, António Costa,  – que tem defendido a solução Morais Pires,  braço direito de Salgado, e pressiona o Banco de Portugal a decidir rapidamente, dos jornalistas-economistas do Expresso, Nicolau Santos e Pedro Guerreiro, que  criticam  veementemente essa solução pela continuidade que representa e pelo facto de o mesmo ser  arguido no âmbito de uma investigação de suspeita de abuso de informação privilegiada. O Expresso veio, aliás, esta semana deitar mais achas na fogueira de Morais Pires ao noticiar que ele terá sido um dos beneficiários de um conjunto de transferências do Banco Espírito Santo Angola (BESA) para o Crédit Suisse.

O novo jornal online, OBSERVADOR, faz uma boa síntese dos posicionamentos jornalísticos dos últimos dias sobre o BES. Leia-se resenha de José Manuel Fernandes:

 

“(…) Boa parte, senão a maioria, dos textos e análises publicados nos últimos dias sugerem que alguém que foi braço direito de Ricardo Salgado não tem condições para lhe suceder à cabeça do BES. Fou o que defendeu Luís Rosa, no jornal i – “O braço direito e esquerdo de Ricardo Salgado não é o líder independente que o Banco de Portugal reclama para o BES” –; João Miguel Tavares no Público – “De nada vale pôr trancas ao galinheiro e deixar a raposa lá dentro” –; Rui Ramos aqui no Observador – “Que fazer para que Ricardo Salgado não volte?” -; ou Pedro Santos Guerreiro, no Expresso (link só para assinantes) – “Isto vai acabar mal. Não para todos, mas para muitos. No GES. No BES. E agora também na Portugal Telecom”.

No Jornal de Negócios Camilo Lourenço pediu hoje uma decisão rápida do Banco de Portugal (que já anunciou que só se pronunciará depois da assembleia-geral) em nome da estabilidade do BES. É esse o mesmo ponto de partida de António Costa, do Diário Económico, com a diferença que este colunista tem sido o mais frontal dos defensores da solução Morais Pires. Na Económico TV fez a defesa de uma intervenção rápida da autoridade de supervisão. Nas colunas do jornal já tinha assumido a defesa da mesma posição a semana passada – “importa saber já se o Banco de Portugal tem alguma reserva ao nome de Amílcar Morais Pires, o actual CFO, e porquê” – depois de antes já ter defendido que “a aprovação do Banco de Portugal ao nome de Morais Pires para a presidência executiva do BES é a peça que falta para garantir a estabilização do banco”. Isto depois de ter defendido que aquele gestor era “a escolha acertada” para o lugar.”

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Imprensa, Jornalismo, Política, Sociologia dos Média com as etiquetas . ligação permanente.

10 respostas a O BES e os jornalistas

  1. Como sempre, o problema é visto como uma deficiência, uma falha que pode ser sanada para que tudo volte ao normal. Para mim, não interessa se perdemos dois peões, o bispo ou o cavalo; nem tampouco se há Roque (pois, também já nos esquecemos do banif…). Enquanto ninguém puser em causa a própria existência do tabuleiro, tudo se manterá na mesma e o nosso empobrecimento é apenas um detalhe insignificante, porque as pessoas se tornaram supérfluas. Se não abandonarmos o dogma da Imaculada Escassez, de pouco serve termos esquerda socialista e comunista que mais não faz do que querer regressar ao capitalismo bom dos 30 que dizem “gloriosos” (à custa da morte e da devastação do 3º mundo). É preciso parar com o maldito mantra do “crescimento e emprego”, que é uma fantasia perigosa; É preciso abandonar a economia e fazer implodir o capitalismo. Encontramo-nos amanhã aqui:
    http://rendimentobasico.pt/eventos/coloquio-2014/
    Abraço

  2. Pingback: O BES e os jornalistas

  3. E, desculpe Brasilino Pires!…Onde se lê “agira”, no meu comentário anterior, deve ler-se “agora”. Não vá o “diabo tecê-las” e também vir com “reparos” linguísticos…

  4. Mas o que é que interessa se é “case study”, ou se é “study case”?
    Toda a gente percebeu o intuito da frase, ou não?
    Olhe, Brasilino Pires!…Na minha profissão, o termo científico correcto é “estudo de caso”…mas, até que acho bem interessante essa terminologia do “case study”…com efeito, a considerar nos meus futuros “abstract” científicos.
    O que interessa aqui, e isso sim, é serem divulgados na praça pública os “meandros” desta “bomba explosiva” do GES, qual fotonovela mediática que ainda agira começou…
    Será que existe segurança e estabilidade financeira no dito grupo?…Ou será que o “zé povinho” também terá que vir a pagar compulsivamente, quiçá (?) por alguma vigarice análoga à do caso BPN?

  5. Brasilino Pires diz:

    Peço desculpa do reparo. E da insistência…
    Até porque só pergunto, não tenho certezas, só impressões.
    Case study não é estudo de caso? A palavra chave não é a do fim, study, estudo?
    No caso afirmativo, quem quiser dizer ‘caso de estudo’ não deverá dizer ‘case study’ – mesmo os da gíria académica, aliás, sobretudo esses – mas antes: study case.
    Será que me faço entender? E será que estou certo?

  6. Case study é gíria académica….

  7. B.P. diz:

    Case study não é estudo de caso?
    E caso de estudo não é study case?
    E por que não usar o português, não escreve para portugueses?

  8. Diogo diz:

    Tudo isso não passa de espuma mediática. Os Salgados, os Jardins Gonçalves e os Ulrichs não passam de gerentes de balcão do Monopólio Bancário Mundial.

  9. Reblogged this on ergo res sunt and commented:
    A Banca e os Media, de Estrela Serrano

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s