O “caso BES” questiona a capacidade do jornalismo para escrutinar o poder económico

BES edifícioÉ para mim evidente que na cobertura desta crise o jornalismo falhou, e o jornalismo económico ainda mais, (…): primeiro na sua previsão – o jornalismo também é antecipação, previsão, prospectiva, “cheirar” o que aí vem, porque, afinal, [dizem agora], os sinais estavam à vista mas o jornalismo económico não foi capaz de o fazer, ou porque não trabalhou ou porque se adaptou ao status quo.

Escrevi esta frase em 2012 para um trabalho do Jornal de Negócios sobre a cobertura jornalística da crise. Mal imaginava que haveríamos de ter o caso BES a provar a justeza da análise então feita. O “caso BES” questiona a capacidade do jornalismo, nomeadamente do jornalismo económico, para escrutinar o poder económico.

Alguns jornalistas escrevem agora artigos inflamados como se nunca tivessem escrito outros artigos igualmente inflamados contra quem criticava o comportamento do sistema financeiro e a promiscuidade com o poder político. É verdade que aqui e ali vozes de outros jornalistas levantaram em momentos específicos (ver aqui)  a ponta do véu que cobre o peso do poder  económico na informação que chega aos cidadãos.

Em 2005 o Grupo Espírito Santo cortou a publicidade ao Expresso e a todo o grupo Impresa por o semanário ter publicado notícias sobre “o pretenso envolvimento do BES no ‘mensalão’ do Brasil”. O Expresso sobreviveu a esse corte mas nem todos teriam capacidade para resistir à perda de milhões em investimento publicitário do então poderoso GES.

Na actual crise do GES/BES, os jornais não puderam calar mais as notícias que alguém decidiu ser o momento de as divulgar. E foram-no com um enorme estrondo. O GES/BES não tem mais capacidade para controlar a informação sobre si próprio. Mas há ainda quem  detenha essa capacidade. Ouvem-se já vozes a dizerem que o BES precisa de silêncio.

 

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4 respostas a O “caso BES” questiona a capacidade do jornalismo para escrutinar o poder económico

  1. espírita diz:

    Essa voz não conta – está só a tratar da herançazinha dos filhos mais velhos. Se não veja-se o que ele disse do bcp, bpn, bpp e banif. Agora a musica é outra – toca-lhe a ele.

  2. Henrique Saraiva e Silva diz:

    O dito “jornalismo económico” falhou neste caso, como falhou nos outros. Não questionou, investigou, estudou, chafurdou na supervisão do Banco de Portugal – e da CMVM, já agora… -, hoje e ontem, depois de BCPs, BPNs, BPPs. Falhou e continuará a falhar. Porquê? já veremos…
    Lembram-se do Apito Dourado? Corrupção em elevado grau no futebol (um negócio de muitos milhões, recorde-se)? pois a “imprensa desportiva” falhou redondamente porque não questionou, investigou, estudou, chafurdou. Andou sempre um passo (ou dois, ou mais) atrás da imprensa dita “generalista”, quando não “sensionalista”. Falhou e continuará a falhar. Porquê?
    Porque o primeiro passo para ultrapassar a linha entre a ética ou a sua falta, entre o que é legal ou ilegal, é “comprar” ou mesmo comprar, aqueles que podem transmitir ao gentio o que se passa. Caladinhos é que são bons. Como se compram? Dinheiro? Não! Troca de informações, exclusivos (inócuos, pois claro), uns almoços ou jantares acima do nivel remuneratório do jornalista, umas viagens a acompanhar os negócios, etc. etc, etc. Uma mão lava a outra e ambas…
    O jornalismo especializado não tem futuro, porque a sua especialidade não é a investigação, não é o trabalho. A sua especialidade é vender os jornais…e já agora a imagem de quem manda na “especialidade”. Este jornalismo não é contra-poder. É poder…apenas! E assim presta um péssimo serviço a quem se dirige: nós, os incautos!

  3. J. Madeira diz:

    Como muito bem diz, as empresas vivem da publicidade assim como os jornalistas!
    Pela ponta do “iceberg” que o GES parece ser, por enquanto fala-se em 5 mil milhões
    mas, a parada pode vir a subir, sabe-se dos “rombos” na PT, CGD, BCP e outros|
    Quanto ao BES, apesar dos reforços de capital convém não esquecer o “mistério” do
    desaparecimento de 5,2 mil milhões de dólares do banco em Angola, falta saber se
    será chamado a cobrir alguns “avales” a outras empresas de grupo!?!
    Houve um jornalista o J. Gomes Ferreira da SIC-N que, há vários anos, levantou sérias
    dúvidas sobre a gestão do grupo, até foi distinguido com um remoque do dr Salgado.
    durante um jantar em New York no famoso hotel blá blá blá !!!

  4. jose neves diz:

    Penso que a ‘história’ do BES com o Expesso não está bem contada. Do que me lembra é que o BES ameaçou com o corte do contracto de milhões de publicidade e a Impresa meteu a viola no saco e o Expresso meteu o “caso mensalão” na gaveta e não mais falou em tal.
    Talvez, agora, que o castelo de areia e o poder de papel tombou, o Expresso possa contar tim tim por tim tim o caso tal como era na altura e como está hoje.

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