De como o Público desperdiçou uma entrevista de qualidade rara

Publico-20140720António Costa dá hoje ao Público uma entrevista notável.  Mas os critérios jornalísticos são o que são. E, por isso, o Público puxou para manchete uma frase que nada diz sobre a questão que mais se tem colocado sobre a decisão de António Costa de disputar a liderança do PS a António José Seguro, e que é saber o que separa António Costa do actual secretário-geral.

A escolha do elogio de Costa a Guterres, como resumo de toda a entrevista (um título contém, em  princípio, o mais importante do texto a que reporta) pode ter um sub-texto que seria mostrar que pouco ou nada separa António Costa de António José Seguro. (Guterres tem surgido nos media como fazendo o pleno como candidato presidencial do PS).

Mas a escolha da manchete pode antes dever-se ao mimetismo dos media que os leva a seguirem os pseudo-eventos criados pelos políticos ou pelos próprios media. É que, este sábado, Santana Lopes em entrevista ao Expresso faz o seu auto-lançamento como candidato do PSD à presidenciais. E à noite, na SIC; Marques Mendes dedica parte do seu comentário ao assunto e diz que  Santana é o preferido de Passos Coelho. O Diário de Notícias foi averiguar e confirma a preferência através de um dirigente não identificado.

As presidenciais passaram assim a ser um tema de actualidade e o Público não quis perder a onda, aproveitando a pergunta do jornalista e a resposta de António Costa:

“Como vê a candidatura de António Guterres a Presidente da República?
Acho que seria um privilégio para o país poder ter o engenheiro António Guterres como Presidente da República.”

O Público desperdiçou assim, uma entrevista de uma qualidade rara em entrevistas a políticos portugueses. António Costa mostra em todas as respostas  um pensamento estruturado e coerente sobre o País e sobre as funções para as quais se apresenta à eleição:  líder de um partido  que espera ser primeiro-ministro.

Costa não foge a nenhuma questão mas também não faz o jogo daqueles que o querem forçar a dizer já onde vai buscar dinheiro para isto e para aquilo e recusa, com argumentos políticos (como se espera de um futuro primeiro-ministro) a conversa da actual maiorias e dos comentadores da direita, da via única para a resolução da crise, isto é, a inevitabilidade da austeridade e a fatalidade da pobreza como destino.

O modo como Costa define uma liderança  – a sua liderança :Na escolha de uma liderança há que ter em conta a capacidade de liderança. E um dos requisitos de liderança é o incutir energia, força inspiradora e de mobilização de quem nos dirige” e como assume o primado da política sobre a tecnocracia “É uma opção política de fundo hoje repor a política no comando dos destinos do país. E a política antes de assentar em opções técnicas, assenta na escolha de valores. A vida em sociedade não é simplesmente vivermos lado a lado, uns com os outros. É uma partilha de valores e os laços sociais que entre nós estabelecemos.“, como em tantos outros passos da entrevista, mostram que  tem as ideias claras e não aceita orientar o seu discurso por premissas impostas por outros.

Para além da substância política da entrevista, António Costa assume-se como um candidato da inclusão e não da exclusão, quer do ponto de vista interno –  unir os militantes socialistas que agora se dividem, em alguns casos  de maneira dramática  – quer do ponto de vista externo, propondo-se explorar com os partidos parlamentares as possibilidades de diálogo  e de colaboração que sempre existem em democracia.

Alguns continuarão a dizer que nada separa os dois candidatos às primárias do PS. Uns porque não lhes interessa buscar as diferenças, outros porque preferem situar a discussão no plano em que se viciaram: o discurso oficial no qual não há argumentos nem soluções para além do satus quo.

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10 respostas a De como o Público desperdiçou uma entrevista de qualidade rara

  1. Antónimo diz:

    E reparará que a agenda pode ser de Costa, mas quem pode vir a levar com ele são os portugueses, pelo que Ana Sá Lopes põe as questões no exacto ponto em que t~em de ser colocada em vez de as colocar onde o candidato e sua enorme comissão de honra na imprensa e apoiantes o têm colocado:
    – Estás preparado? Então prova-o.

  2. Antónimo diz:

    Estrela Serrano, Isso das unanimidades nacionais (curioso que eu tenha bem melhor memória de um Vera Jardim) trouxe-nos onde nos trouxe.

    O que não tem faltado aí são as unanimidades sobre génios como Cavaco, Borges, Vitorinos e muitos outros com as consequências que agora conhecemos e que em nada mudou as perspectivas de Costa.

  3. É natural que os jornalistas, como Ana Sá Lopes, queiram respostassobre os temas da agenda política e da agenda dos media. Mas quem possui a expectativa de vir a liderar o partido que pode vir a ganhar as próximas eleições, não se subordina às agendas de outros. tem a sua própria agenda. E que entendo da estratégia de Costa é que ele traçou uma lionha de actuação que passa por enunciar primeiro os princípios que nortearão a sua acção descendo depois à sua concretização. Chegará a altura de ser mais concreto, sem o que seria absurdo candidatar-se a primeiro-ministro.

  4. Antónimo, da sua análise destaco que não foi António Costa que proferiu a frase que cita sobre o Caso Casa Pia: “Estou-me cagando para o segredo de justiça”. Essa frase foi dita por Ferro Rodrigues. De resto, respeito a sua opinião, que não partilho e recordo que Costa é considerado por muita gente de vários quadrantes como um dos melhores, senão o melhor, ministro da Justiça depois do 25 de Abril.

  5. Antónimo diz:

    Vejo em http://www.ionline.pt/iopiniao/ps-campanha-trofeu-sexy-platina/pag/-1 que Ana Sá Lopes detectou na tal entrevista a recusa “a dizer o que pensa sobre a consolidação orçamental, o que pensa sobre a reestruturação da dívida e de como sair do buraco em que estamos” e a vontade de “descobrir nos meandros do Tratado Orçamento qualquer coisa que ajude o país”.

    No PS, falta descobrir o que nos caiu em cima nos últimos anos à custa dos sucessivos tratados europeus que assinaram de cruz e na entrega aos BES e às Mota-Engil de tanta parceria público privada. São os Bessas, os Amados, os Vitorinos, os Pinhos e por aí fora.

    Costa tem boa imprensa (vá-se lá saber pq, uma vez que a trata mal) e bons comentadores. E para o país tem o discurso das outras moscas que aí andam voltejando.

  6. Antónimo diz:

    Se a entrevista fosse boa, Estrela Serrano, não teria destacado generalidades que qualquer democrata subscreve.

    Costa representa o que o PS tem de situacionista e reflecte-se nos habituais eleitores pelo lado calculista. Acreditam ser o meio para regressar ao poder, um poder que interessa para ter o poder e não um poder que interesse para mudar o país no sentido que o país necessita.

    No PS parece não se ter percebido nada do que aconteceu nas últimas décadas de construção europeia assente nos inevitáveis dos tratados neo-liberalizantes, da moeda única, de Lisboa, dos apoios às eleições de Barroso ou de Junckers. O seu bem conhecido Alfredo Barroso parece ter sido um dos poucos a já ter percebido quem é o candidato que apoiou. Era bom que Mário Soares, Galamba, Pedro Nuno Santos, Duarte Cordeiro, Delgado Alves que têm dito e defendido coisas interessantes e inteligentes percebessem também onde se estão a meter.

    Costa foi por duas vezes ministro contestável, com medidas de teor autoritário e uma acção que não lhe abona propiamente um lado humanista desejável num socialista mas antes um pendor napoleónico. Como presidente da câmara nada o justifica especialmente. Lisboa é com ele uma cidade entregue a interesses privados e por escrutinar (vejam-se as peças de Cerejo sobre o modo como Costa vê a liberdade de informação).

    Podia falar-se também do modo como lidou com o Caso Casa Pia: “Estou-me cagando para o segredo de justiça”, por exemplo.

    Podia falar-se das cionvergência que vai fazendo em encontros com Rio (outro duro pouco aberto ao escrutínio e ) ou da ausência da dívida e do défice na sua convenção pessoal. Não por acaso, o tiro de partida desta candidatura foi dado na Quadratura do Círculo por Pacheco Pereira.

    Podia falar-se da tralha que traz agarrado, constituída por personalidades como Vitorino, ou Coelho, ou Canas, ou Vitais Moreiras que há muito e desejavelmente o PS devia já ter posto com dono mandando-os cantar para a freguesia a que pertencem a da direita dos interesses.

  7. José Costa diz:

    BILDERBERG. O CLUBE QUE FAZ POLÍTICOS.E que depois os exporta para PORTUGAL para ajudar os países do NORTE DA EUROPA A CRESCER à custa das más politicas e da sua mediocridade que nos levaram aos ajustamentos orçamentais e ao miserabilismo imposto por via da AUSTERIDADE AOS PAÍSES DO SUL.

  8. ribeiro diz:

    Sem dúvida que António Costa é um líder inspirador e com provas dadas na gestão da cousa pública. A entrevista, como se ressalta no post de Estrlea Serrano, é a confirmação desse tipo de líder.

  9. Antónimo: Se ler a entrevista vai mudar de opinião, verá que não é apenas “conversa” e que as ideias estão bem claras.

  10. Antónimo diz:

    Tem graça que ao destacar

    “O modo como Costa define uma liderança – a sua liderança :“Na escolha de uma liderança há que ter em conta a capacidade de liderança. E um dos requisitos de liderança é o incutir energia, força inspiradora e de mobilização de quem nos dirige” e como assume o primado da política sobre a tecnocracia – “É uma opção política de fundo hoje repor a política no comando dos destinos do país. E a política antes de assentar em opções técnicas, assenta na escolha de valores. A vida em sociedade não é simplesmente vivermos lado a lado, uns com os outros. É uma partilha de valores e os laços sociais que entre nós estabelecemos.“, como em tantos outros passos da entrevista, mostram que tem as ideias claras e não aceita orientar o seu discurso por premissas impostas por outros.”

    Estrela Serrano se mostre convencida por conversa e declarações genéricas e sem nada de substantivo, coisas que tanto podiam ser ditas por Costa como por António Seguro que as subscreverá na íntegra.

    Nada disso que destaca mostra que Costa esteja preparado para governar ou que tenha percebido o que aconteceu nos últimos anos (pior, Seguro e o PS vão na mesma). Eu que não consegui acesso online à entrevista fico pelos vistos arredado dos seus alegados melhores pontos. O Público mimetiza. Estrela Serrano destaca coisa nenhuma.

    Declaração: Nunca apreciei os mandatos de Costa como ministro. Como autarca não faz esquecer (bem pelo contrário, nem João Soares nem Sampaio) e ainda por cima tem uma costela autoritária que não domina. Mas com Rio também alinhado parece que os portugueses (ou a comunicação social, ou não é Balsemão que os leva ao Bilderberg?) estão mais uma vez apostados na escalada do pulso – ao estilo cavaquista, dos que raramente se enganam ou têm dúvidas.

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