Quem pode confiar na fiscalização do sistema financeiro?

A falta de transparência que tem marcado todo o processo BES/GES, sobretudo da parte do Banco de Portugal (BdP), apoiado nessa política de silêncio pelo primeiro ministro e pela ministra das Finanças, é a todos os títulos inaceitável.  E é-o tanto mais quanto ser certo, como se provou até aqui, que as instituições a quem cabe fiscalizar o sistema financeiro -o Banco de Portugal, a CMVM e os auditores internos e externos  – sem excluir  os media a quem cabe o escrutínio dos poderes, se têm mostrado incapazes de prevenir e desocultar a situação do Grupo e do Banco Espírito Santo que arrastou já uma das maiores e mais cotadas  empresas portuguesas – a Portugal Telecom (PT).

Como escrevi aqui, não faz qualquer sentido que o BdP anuncie auditorias forenses a instituições financeiras sem dizer quais são essas instituições e deixe que sejam os jornalistas a iniciarem a “caça” para saberem quais são elas, correndo depois riscos de informações incorrectas, como aconteceu com a auditoria ao Montepio Geral que afinal não se relaciona com a exposição ao BES ou com ilícitos criminais.  

De facto, que confiança podem os cidadãos ter nas auditorias que foram e estão a ser feitas quando, no caso do BES, em 30 de Julho passado era o próprio BdP a transmitir publicamente que, “tendo em conta a informação reportada pelo Banco Espírito Santo, S.A. (BES) e pelo seu auditor externo (KPMG & Associados – Sociedade de Revisores Oficiais de Contas, S.A), o BES detinha um montante de fundos próprios suficiente para acomodar eventuais impactos negativos decorrentes da exposição assumida perante o ramo não financeiro do Grupo Espírito Santo (GES) sem pôr em causa o cumprimento dos rácios mínimos em vigor.”? Ora, dias depois foi o que se viu… Alguém pediu responsabilidades à auditora?

Aliás, quer  Ricardo Salgado quer Zeinal Bava eram até há pouco considerados gestores modelo, com  provam os prémios e distinções, como o que a fotografia atesta em que  a PT e o BES foram premiados por “Boas Práticas de sustentabilidade em áreas de actuação distintas”

Ricardo Salgado e Zeinal Bava entre os galardoados com 0 Prémio de Cidadania das Empresas e Organizações, 2009

Ricardo Salgado e Zeinal Bava entre os galardoados com 0 Prémio de Cidadania das Empresas e Organizações, 2009, iniciativa conjunta da AESE e da auditora PwC

Curioso é o facto de o prémio a que se refere esta fotografia ser promovido com a colaboração de uma auditora financeira, a PricewaterhouseCoopers (PwC) .

Como é sabido, a realização de auditorias  pode envolver  conflitos de interesses resultantes de situações em que as consultoras são escolhidas e pagas pelos bancos cujas contas examinam, como aconteceu agora com a  PricewaterhouseCoopers  condenada em Nova Iorque a uma coima de 25 milhões de dólares por “alterar indevidamente” um relatório do banco japonês Bank of Tokyo Mitsubishi UFJ.

Em nome da transparência e do direito dos cidadãos à informação, as auditorias realizadas pelo Banco de Portugal e outras envolvendo dinheiros públicos deveriam ser públicas, como acontece, por exemplo, com as auditorias à RTP, promovidas pela ERC.

O Caso BES/GES, sobre o qual não cessam de surgir elementos novos, põe em causa a credibilidade do Banco de Portugal, da CMVM e das auditoras que ao longo do tempo atestaram a saúde do sistema financeiro nacional.

 

 

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6 respostas a Quem pode confiar na fiscalização do sistema financeiro?

  1. Povo de total incapacidade de governar o seu País. Naturalmente serão Outros a faze-lo.
    Governantes de baixa moral e traidores repugnantes. Mercenários, criminosos a soldo do dinheiro fácil. Só com uma atitude radical e absolutamente a favor da Pátria. Toda a pilhagem vir para o Estado Português e a Banca ser Nacionalizada. Crimes leza Pátria deverão ser condenados com pena de morte.

  2. Pingback: Fórum de resultados – uma espécie de orgão de soberania | Caramba, muito

  3. Nem mais!…As auditorias realizadas pelo Banco de Portugal e outras que envolvam dinheiros públicos, deveriam ser PÚBLICAS!!!
    Há que reclamar transparência no que diz respeito à informação dos cidadãos, caso contrário, somos induzidos a divagações depreciativas, quiçá em nada irrealistas(?), motivadas pela quebra de confiança nas instituições a quem cabe fiscalizar!

  4. gostaria de poder partilhar o que sei sobre a Banca . Tudo sto que se está a passar , já eu ando a denunciar há mais de 30 anos .Sempre disse que a banca é o pior antro de corrupção , que os negócios de armas e de drogas .

  5. Antónimo diz:

    E onde está a aposta do Estado em manter departamentos próprios com meios técnicos e humanos especializados? Financeiros inventam todos os dias aldrabices novas e a sociedade continua a fingir que supervisiona, que é muito caro criar autoridades estatais com capacidade técnica.

  6. Reblogged this on ergo res sunt and commented:
    Curiosa é a evidência clamorosa do que afirma a Prof. Estrela Serrano. De tal modo evidente que se regista à escala planetária, é publicada casuisticamente mas com regularidade e, aparentemente, produz zero consequências.
    A KPMG não é virgem neste tipo de situações – ainda há bem pouco tempo foi “apanhada” numa prática semelhante noutro país. Mas, se analisarmos o histórico, a reputação das empresas de auditoria devia andar pelas ruas da amargura. Recordo aqui os inúmeros erros, omissões, ocultação de prejuízos e falsificação de contas a que aparecem frequentemente associados os nomes da PwC, E&Y, Deloitte e KPMG.
    Aliás, a história dos factos que conduziu a que, as anteriormente conhecidas Big Five, sejam hoje designadas Big Four. Para além da fusão da Price Waterhouse com a Coopers & Lybrand, o facto mais relevante foi a perda da licença de Auditoria pela Arthur Andersen, que era a n.º 1 do sector, devido ao seu envolvimento nas práticas criminosas que culminaram na falência da Enron, um gigante da Energia sedeado no Texas.
    Com este curriculum, digo cadastro, persistir no mesmo erro não é estupidez nem incompetência. É tráfico de influências, corrupção e ideologia.

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