VAI E VEM

António Costa e o jornalismo “concreto”

A disputa da liderança do PS está a revelar uma nova faceta do jornalismo que se tornou visível no tratamento jornalístico das intervenções públicas de António Costa, em especial nas suas entrevistas e nos comentários a essas entrevistas.  Esta terça-feira tivemos dois exemplos dessa nova abordagem jornalística: a entrevista de António Costa ao Diário Económico e a coluna do comentador João Miguel Tavares, no Público.

Em que consiste então essa nova faceta do jornalismo? Consiste em a cada declaração ou resposta de Costa a perguntas dos jornalistas, estes invariavelmente perguntarem “isso significa concretamente o quê?“, ou então afirmarem que Costa “não disse nada de concreto”. É um jornalismo que só se interessa pelo concreto e pelo imediato.

Se Costa fala de “Uma agenda para a década” como uma estratégia que pretende ir ao fundo dos problemas, desenvolvendo os pilares fundamentais dessa estratégia, os jornalistas não querem saber disso e exigem  coisas “concretas” que, coincidência ou não, correspondem sempre às questões da agenda do governo (vai ou não cortar nas pensões e salários,  subir ou descer impostos, cumprir ou não o défice, etc. etc.).

Se Costa insiste na sua própria agenda, logo é acusado de não quer expôr-se ou de não ter soluções.

Na entrevista ao Diário Económico há passagens verdadeiramente interessantes sobre o “jornalismo concreto” como, por exemplo, esta:

Diário Económico (DE):Mas tem a noção de que o futuro Governo tem o mesmo problema das finanças públicas para resolver, independentemente das questões estratégicas que falou?” E quando Costa responde que sobretudo é ter em conta que a questão das finanças públicas, em si, não se resolve sem uma estratégia de relançamento da economia, logo o “jornalista concreto” se apressa a contrapôr:

DE:Temos tempo para isso? Para esperar pelos resultados dessa estratégia de médio e longo prazo sem violarmos os acordos internacionais?”

E se Costa não alinha no “jornalismo concreto” o caldo ameaça entornar-se, como nestas passagens da entrevista:

DE:Já ouvimos…”
A. Costa: “Mas vai ouvir outra vez.” 
DE: O país tem um problema a resolver na Segurança Social.”
A. Costa: “O país tem um problema de fundo a resolver que é o da competitividade da economia”.
DE: “Se acha que não, então diga que não…”
A. Costa:”Não lhe digo que não, porque depois põe título, em que faço figura de palerma, do género “a Segurança Social não é um problema“.

Noutra parte da entrevista, Costa não foge à questão fundamental do jornalismo de economia quando, perante a insistência dos entrevistadores sobre as causas da crise, responde: enquanto a imprensa económica continuar a repetir acriticamente a doutrina que o Governo vendeu como causa da crise, o país não a conseguirá enfrentar. E o que é extraordinário é que se persista numa leitura contrariada por tudo o que são economistas, pelas próprias instituições internacionais e hoje já pelo próprio discurso oficial da Comissão Europeia.” 

O “jornalismo concreto” passou também para os comentadores, como é visível nesta passagem do artigo de hoje, do colunista do Público: “(…) as primárias só estão a desgastar António Costa porque ele está a ser obrigado a falar, e ao falar nada tem para dizer. As pessoas que por ele têm consideração intelectual, como é o meu caso, acham que ele não diz porque não quer. Só que isso ainda é pior do que não dizer porque não sabe.”

Uma explicação para esta súbita fixação dos jornalistas no “concreto”quando falam com António Costa  está talvez no facto de pretenderem contrariar a ideia, corrente até há pouco, de que Costa tem “boa imprensa“. A demarcação surge então sob a forma de um jornalismo agressivo ou sob a (nova) forma de um jornalismo que, à falta de melhor termo, se pode chamar  “jornalismo concreto”.

Ora, como bem se escreve aqui, “um candidato a PM, por um partido que aspira a ser governo, tem a noção dos tempos e não gasta o seu latim pesado numa campanha prévia, numa disputa interna, um ano antes das eleições.”