A RTP tomou uma boa decisão

Decapitação do jornalista esbatida 2Faz parte da história do jornalismo que em tempo de guerra os constrangimentos que os jornalistas enfrentam diariamente nas escolhas das imagens e dos sons que divulgam, são maiores do que em tempos de paz. Já era assim antes de o mundo virtual e em particular as redes sociais terem alterado profundamente a relação dos cidadãos  com a informação e facilitado a propagação, sem limites,  de todas as mensagens.

Em Outubro de 2001, a  administração Bush solicitou aos canais de televisão do seu país  que limitassem o uso de gravações de Ben Laden e dos seus apoiantes. A justificação apresentada foi a possibilidade de essas gravações conterem mensagens codificadas destinadas aos seus seguidores e poderem ser usadas para os inspirar e para assustar os americanos. A atitude foi considerada inédita mas as televisões não ofereceram grande resistência em corresponder ao pedido, tendo o presidente da CBS afirmado que ‘ninguém se sentiu ofendido’ com essa solicitação, apesar de o caso ‘não ter precedentes’.

A decisão, sensata, a meu ver, tomada pela RTP de não exibir nos seus serviços de programas imagens como as que têm sido divulgadas nas televisões, nos jornais e nas redes sociais, da execução dos jornalistas  americanos pela organização terrorista Estado Islâmico é, a vários títulos, louvável: desde logo, em respeito pela dignidade das vítimas, humilhadas, de joelhos perante o seu carrasco, recitando para o mundo o “credo” a que foram obrigadas antes de serem decapitadas; depois, pelo sentimento de horror e agonia que essas imagens provocam em quem  se depara com elas; finalmente, porque ao constituirem-se como mensageiros daquelas imagens e da mensagem radical e selvagem  que veiculam, os media tornam-se veículos de propaganda dos criminosos.

O lugar do jornalismo é o da procura da verdade mas a liberdade de imprensa e o dever de informar não autorizam tudo. O uso de imagens e sons não essenciais à compreensão da informação, nomeadamente quando são contrários à defesa e ao respeito pela vida e pelos direitos humanos, é um uso irresponsável da liberdade de imprensa.

A repulsa e a condenação dos princípios e  meios usados pela organização terrorista Estado Islâmico não carece da exibição dos seus actos de barbárie.

A RTP esteve neste caso à altura do seu estatuto de operador público.

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Uma resposta a A RTP tomou uma boa decisão

  1. José Dinis diz:

    Concordo. A violência, os incêndios, os “trillers”, as reportagens sobre manifestações de irreverência com perturbação pública, o neto que bate na avó, as decisões judiciais de enviar os criminosos para casa, entre outras tipificações, parecem configurar situações de estímulo à marginalidade e à desordem.
    A publicidade é um fenómeno que não está a ser convenientemente entendido, e os noticiários, são a publicidade de acontecimentos. Ora, para muita gente é giro deixar a bófia à rasca e sem soluções. São desafios. Formas de afirmação.
    Por isso, repito, concordo.
    JD

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