O tiro de pólvora seca da revista Sábado

Se os jornalistas não confiassem tão cegamente em  fontes “privilegiadas” que lhes sopram “certezas” que eles nem se dão ao trabalho de confirmar, mesmo quando isso até nem daria muito trabalho, escusavam de ver depois desmentidas as suas cachas, de maneira quase  humilhante. Foi o caso da revista Sábado com a notícia de  uma denúncia sobre alegados pagamentos do grupo Tecnoforma a Pedro Passos Coelho quando este desempenhou funções de deputado, alegadamente  em exclusividade, entre 1995 e 1999 (e que ascenderiam a 150 mil euros). A AR veio agora esclarecer que Passos Coelho “não teve entre novembro de 1995 e de 1999 qualquer regime de exclusividade enquanto exerceu funções de deputado”.

Claro que a revista pode sempre dizer que a notícia é verdadeira porque a denúncia existe e até foi confirmada pela Procuradoria-Geral da República. Mas se a Sábado tivesse confirmado a situação do então deputado Passos Coelho e verificado que ele na altura não estava em exclusividade, poderia na mesma dar a notícia da denúncia mas não poderia escrever como fez  “Passos acusado de ilegalidade”, visto que sem exclusividade não há, no caso, ilegalidade no recebimento de outra remuneração. Claro que a notícia perderia impacto e talvez nem houvesse notícia.Sábado Passos Tecnoforma

Também se afigura incompreensível que a Procuradoria-Geral da República perante uma denúncia que envolve o primeiro-ministro (seja este ou qualquer outro) não verifique imediatamente se a denúncia  tem alguma correspondência com a realidade (neste caso,  pelo menos quanto à questão da “exclusividade”) em vez de se limitar a fazer comunicados que nada esclarecem.

Isto dito, também é certo que a crer na entrevista dada há alguns meses à mesma revista Sábado por um ex-administrador da Tecnoforma, haverá algumas questões que merecem análise, por exemplo,  no que se refere à influência exercida por “facilitadores” junto de agentes do poder, que nuns casos a justiça considera simples prática de lobbying e noutros “tráfico de influências”.  Eis um bom tema para investigação jornalística, comparando por exemplo a doutrina exposta  no acórdão do processo Face Oculta com a que conduziu ao arquivamento pelo DIAP de Coimbra do caso relacionado com formação para aeródromos em que Passos Coelho e Miguel Relvas eram visados,

Mas isso são curiosidades académicas que não interessam aos jornalistas. De todo este caso vai sobrar apenas o tiro de pólvora seca da notícia da revista Sábado.

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8 respostas a O tiro de pólvora seca da revista Sábado

  1. Ca temos um português típico, daqueles que gostam de ditaduras de décadas e de levar com patas em cima. Ganda noia : parece que o guru idolatrado escreveu pelo próprio punho que esteve em regime de exclusividade. Tanta saliva e letra para nada. Nem deve valer a pena ler as inanimades dos outros posts…

  2. Pingback: A “exclusividade” do deputado Passos e a quadratura do círculo | VAI E VEM

  3. Este seu post tão incisivo, tão ponto final, não terá sido precipitado?
    Há sempre tanta carta fora do baralho…

  4. RFC diz:

    Como sabe, o P. pela mão do Paulo Pena e do José António Cerejo traz hoje novidades (que separam claramente quem faz o trabalho de casa e quem faz dos zuns-zuns profissão). A esta hora espera-se que Albino Azevedo Soares esteja a arrumar os bibelots, ele que foi uma segunda ou terceira escolha para SG durante o atribulado mandato de Assunção Esteves à frente da AR.

  5. Pingback: Os tiros de pólvora seca de Estrela Serrano

  6. José Canteiro diz:

    Cara Estrela Serrano,
    Não sei até que ponto esta notícia da Sábado não terá tido o “aval” do PPC. De facto, tal justificaria a resposta “mal enjorcada” de sexa e, consequentemente, uma ilacção do tipo: “Estão a ver, eles bem procuram algo que sirva para atacar a minha integridade, mas eu não tenho ‘rabos de palha’, tendo pautado sempre a minha vida pessoal, profissional e política pelos mais elevados padrões éticos e de responsabilidade”. Teoria da conspiração? Talvez. Mas que desta gente é de esperar tudo, lá isso é!
    Cordiais saudações
    JC

  7. Spartacus diz:

    Desde que vi o “consultor da ONU” Artur Baptista da Silva a perorar no “Expresso da Meia Noite” já nada me espanta. Entretanto, graças a Deus, Nicolau Santos parece que continua por lá e permanece Keynesiano…

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