Passos, o Parlamento e a Tecnoforma: para uma teorização do escândalo político

Debate quinzenal de 19 de março de 2014 (LUSA)A situação que envolve o primeiro-ministro na sua relação com a Tecnoforma durante os anos em que foi deputado transformou-se num “escândalo político”, na definição de John B. Thompson, no sentido em que o escândalo político se define não  tanto pela natureza da transgressão cometida, como pelos efeitos que produz e pelos enquadramentos em que se desenvolve.

A componente mais frequente da dinâmica do escândalo político é a tentativa de  encobrimento do delito inicial que gera novas transgressões, geralmente mais graves. A hipocrisia é a componente central  de muitos escândalos nos quais o essencial não é tanto a transgressão de uma norma social, como a contradição entre as práticas descobertas e a imagem pública do agente político em causa.

Nas sociedades contemporâneas, o percurso do escândalo político cruza o campo político com o campo jornalístico e o campo da justiça, alimentando-se das tensões e cumplicidades entre eles: por um lado, o campo político tenta esconder ou atenuar os danos das acções descobertas; por outro, o campo jornalístico joga com a desocultação e a visibilidade pública dos protagonistas do escândalo apoiado numa relação, por vezes promiscua, com o campo da justiça.

O escândalo político contemporâneo nasce e desenvolve-se num enquadramento mediático que inclui debates, comentários, cenários, dramatização das consequências, sendo  potenciado pelos novos media que encontram nele argumentos populares de condenação e desligitimação do poder político (e/ou financeiro) e apelo  a valores e a normas morais com punição severa dos infractores.

Encontram-se no caso Passos Coelho/Tecnoforma/Parlamento todas as características do escândalo político tal como teorizado por Thompson: a tentativa de encobrimento, através da não resposta de Passos, ou da  resposta ambígua, às questões colocadas pelos jornalistas quanto ao seu estatuto enquanto deputado e ao recebimento ou não de pagamentos da Tecnoforma; a dramatização das consequências de uma eventual confirmação dos alegados ilícitos; a fuga de informação para os media da denúncia anónima; a extrema visibilidade conferida ao caso, sob a forma de debates, comentários, análises;  a sua potenciação nos novos media.

O escândalo político afecta irremediavelmente as fontes do poder simbólico: a reputação e a confiança. Ao exporem  à exaustão os protagonistas do escândalo politico, os media, consciente ou inconscientemente, esvaziam o que resta da sua credibilidade.

A história da humanidade está repleta de actos ilícitos e mesmo de escândalos. Porém, nas sociedades contemporâneas o papel central dos media transforma qualquer ilícito político ou financeiro num escândalo mediático de proporções incontroláveis.

Veremos se Passos Coelho resiste à avalanche de notícias e se a sua opção de se escudar nas duas instituições – Ministério Público e Assembleia da República – ainda o salva da onda que ameaça submergi-lo.

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2 respostas a Passos, o Parlamento e a Tecnoforma: para uma teorização do escândalo político

  1. cristof9 diz:

    Tenho pena que se tenha perdido mais uma oportunidade de falar de coisas mas importantes como o que fizeram tecnoformas, partex, secretarios de estado, directorios disto e daquilo aos milhoes que Merkl e compinchas deram(mesmo dados) para que se andassem a formar cem guardadores por campo de aterragem de avioes que não existem.
    Claro que as “ajudas de custo” foram para olear o jovem promissor a chegar a um lugar onde poderia decidir sobre coisas maiores; como se tem visto alias.
    Perder tempo com as cascas de amendoins que caem e esquecer do caroço é proprio de tanta gente porquê? será que o que ouvimos no barbeiro é mesmo verdade? =isto anda tudo ligado!!

  2. J. Madeira diz:

    Se se safar desta, sem a dissolução da A.R. e marcação de eleições
    será caso para se confirmar que somos uma república das bananas!!!

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