As primárias e a personalização da política: alguns equívocos

Criticam  alguns a personalização da política, atribuindo às  primárias do PS o “defeito” de se terem centrado nos candidatos relegando para segundo plano  os seus programas. Segundo esses críticos, Costa ganhou  “sem dizer nada”, valendo-se apenas do seu carisma. Ora, ainda que assim fosse, já não era pouco.

Esta manhã no FÓRUM TSF , dedicado ao tema “As primárias e a democracia”, foi visível o incómodo revelado por dirigentes do CDS, do PCP e do BE, quando questionados pelo moderador sobre o que pensam das primárias e como encaram a sua realização nos respectivos partidos. Aliás, o PCP, pela voz de Jerónimo de Sousa, disse logo após as primárias que elas eram “uma farsa”. E hoje, no FÓRUM TSF, Nuno Melo tentou por todos os meios fugir à questão, acabando por recusá-las para o CDS.  Cecília Honório, do BE, criticou também a personalização das primárias. Ora, o BE é um bom exemplo da importância da personalização da política. Com a saída do seu líder carismático, Francisco Louçã, e a opção por uma liderança bicéfala, o BE apagou-se e perdeu força.

Como escrevi aqui, não sou entusiasta das primárias. Mas o argumento de que as primárias conduzem à personalização da política em torno de personalidades em detrimento dos partidos  e dos seus programas não tem sentido.

De facto, não são as primárias que personalizam a política. Todos os estudos sobre campanhas eleitorais mostram que um dos indicadores de mudança nas últimas décadas é a personalização das campanhas, com a concentração da cobertura jornalística nos candidatos e o enfoque nas suas qualidades de liderança  (competência, integridade, ética, coragem, experiência) enquanto os partidos e os programas são empurrados para uma segunda linha.

A personalização da política está intimamente relacionada com a mediatização da política, nomeadamente com o papel central da televisão. A personalização permite apelar mais facilmente aos afectos e ajuda a captar a atenção do público.  Em televisão, a personalização é facilmente adaptada à gramática do meio. É mais fácil filmar um indivíduo do que um processo. A imputação pessoal permite que o telespectador se identifique com um acontecimento. Daí que a apresentação jornalística de processos sociais e políticos seja quase sempre personalizada.

Embora a personalização da política esteja mais presente nos sistemas presidencialistas, como é o caso dos EUA, essa característica estendeu-se à Europa, incluindo a Portugal, onde Adriano Moreira  identificou um “presidencialismo do primeiro-ministro”.

A personalização da política não é uma questão boa nem má. É um dado de facto. Mais vale reconhecê-lo e encontrar maneira de aliar a personalização da política à substância da política.

Um simples olhar para os cartazes dos partidos de  há alguns anos basta para ver como a imagem dos líderes é omnipresente (incluindo dos partidos que criticam a personalização).

Europeias 2014

 

 

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Uma resposta a As primárias e a personalização da política: alguns equívocos

  1. Alendaqui diz:

    Vejo um erro no cartaz do PPD, onde se lê “O futuro é agora” deverá ler-se “O futuro é Angola”.

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