VAI E VEM

Caso BES: os “papéis” da vingança

Nas últimas semanas não cessam de surgir na imprensa documentos variados, cartas, actas de reuniões, etc., relativos ao BES, uns publicados pelo Expresso, outros pelo i e hoje também pelo Sol.

Como escreveu o sociólogo Daniel Boorstin, o importante não é só o que acontece mas também o que a comunicação social diz que acontece.

Se Boorstin pudesse ter estudado o caso BES certamente acrescentaria que importante é também  saber como acontece, quando acontece e porque acontece.
A publicação dos documentos surgidos na imprensa é indissociável do contexto em que surge, desde logo: o comportamento do primeiro-ministro e da ministra das Finanças dissociando-se da solução Novo Banco / Banco Mau; a questão da fuga de informação que levou à venda das acções nos últimos dias antes da Resolução, que poderá ter afundado definitivamente  o BES; a atitude do governador do BdP deixando apodrecer a situação;  o processo judicial que decorre na Procuradoria-Geral da República; a comissão de inquérito parlamentar.

Ora, apesar de os documentos vindos a público revelarem comportamentos inaceitáveis da parte do BES e do seu presidente Ricardo Salgado, esses comportamentos não são surpreendentes depois do que o governador do BdP disse sobre o funcionamento do BES.

Daí que o que de mais surpreendente se retira dos  documentos publicados é a evidência de que o governo de Passos Coelho, agora com os nomes nos” papéis” publicados hoje pelo Sol – primeiro-ministro, ministra das Finanças, Carlos Moedas  e o Presidente da República – foram informados pelo próprio Salgado, em Junho passado, sobre a situação do grupo e do banco.

Nenhum deles desmentiu até agora a versão dos “papéis”. Carlos Moedas confirmou mesmo que recebeu o telefonema de Ricardo Salgado pedindo os seus bons ofícios junto da Caixa Geral de Depósitos e do ministro da justiça do Luxemburgo, embora afiance que não  deu sequência ao pedido. Ora, a não ser que os “papéis” sejam falsos, alguém tem de explicar a narrativa posta a circular de que ninguém sabia o que se estava a passar no BES/GES.

E assim os papéis que aparentemente afundam ainda mais Ricardo Salgado são tão ou mais comprometedores para o governo,  para o governador do BdP e para o Presidente da República porque mostram que Salgado os informou e até lhes pediu ajuda.

E, afinal, Ricardo Salgado já bateu tão fundo que dificilmente haverá “papéis” que o afundem mais.

Há ainda um pormenor:  a Comissão Parlamentar de Inquérito não vai ter de perder tempo a pedir documentos. Estão todos nos jornais. Se não fosse isso nem se saberia que existiam.

A vingança serve-se fria e, neste caso, através de “papéis”.