“Ignorantes” e “preguiçosos”, disse Passos

Passos critica comentadores

O primeiro-ministro está zangado com os comentadores e com os jornalistas. Presume-se que mais com os primeiros do que com os segundos porque, relativamente aos jornalistas, como disse Jerónimo de Sousa, o primeiro-ministro “é pobre e mal agradecido”. De facto, durante os três anos que leva de governo, o discurso dos media tem seguido quase sempre o discurso oficial, nomeadamente no que se refere à narrativa sobre a crise e à inevitabilidade da austeridade e do empobrecimento do País.

Quanto aos comentadores da sua área política (era seguramente a estes que o primeiro-ministro se referia) a sua desilusão resulta certamente do facto de sendo a grande maioria deles, pelo menos os mais citados (et pour cause), ex-dirigentes do seu partido, ele esperar talvez maior simpatia da parte de alguns deles, como Marques Mendes e Manuela Ferreira Leite, já que Marcelo apesar de imprevisível causa menos “estragos” do que, por exemplo, Manuela Ferreira Leite.

Marcelo e Marques Mendes, apesar da aparência de algum distanciamento face ao governo, são políticos que comentam sobretudo os bastidores dos processos de decisão na área do governo, as tricas e intrigas, mais Marques Mendes que Marcelo, sem contudo “ferirem” o governo em questões essenciais.

No caso de Marques Mendes, o seu valor de mercado reside sobretudo no facto de ter acesso a a informação privilegiada, oriunda do interior do governo. Não raras vezes passa e envia  recados de uma facção do governo e do partido a outras facções. O interesse em ouvi-lo reside sobretudo em saber que “notícia” vai trazer  em cada dia.

Marcelo é um pouco diferente, na medida em que se tornou uma “instituição”. Perceber o que ele na realidade diz, sem o  dizer, é sempre um exercício estimulante para analistas. Cada palavra sua tem sempre um duplo alcance. Tal como Marques Mendes, não falha no seu comprometimento partidário.

Quem verdadeiramente faz mossa no governo é Manuela Ferreira Leite. O seu comentário, é competente e quase sempre rigoroso, feito com o saber que lhe advém de falar de uma área que estudou e governou enquanto ministra das Finanças. Isso distingue-a do comentador político tout court e por isso tem mais crédito mesmo da parte daqueles que não se identificam nem concordam com ela.

O primeiro-ministro não tem, mesmo assim, razão para dizer o que disse e, sobretudo, no tom em que o disse, depois de o seu governo ter criado os briefings com os resultados que se conhecem e da benevolência com que os jornalistas aceitam as suas omissões no “caso Tecnoforma”. “Ignorantes” e “preguiçosos” (como chamou a jornalistas e comentadores), é o que não falta no governo. Olhe para a Educação e a Justiça e diga o que lhes havemos de chamar.

Mas isso não quer dizer que uma discussão sobre a qualidade do comentário que passa nos media, em Portugal, e não apenas do comentário político, não mereça discussão. Essa discussão devia, aliás, ser feita pelos próprios media.

O comentário é um género de discurso tão nobre como qualquer outro. Os seus autores, refiro-me aos chamados “comentadores residentes”, deveriam por isso ser escolhidos com critério, de acordo com  conhecimentos, experiência e  capacidades demonstradas. Estas qualidades encontram-se em muitos, incluindo  os oriundos da área política, que conseguem trazer às suas intervenções visões e reflexões que ultrapassam  “capelinhas” e constituem mais-valias para quem os escuta.  Mas, reconheça-se, são uma minoria.

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2 respostas a “Ignorantes” e “preguiçosos”, disse Passos

  1. Maria diz:

    A ideia do ” este menino faz, mas os outros também fizeram! ” não é argumento para salvar a imagem deste governo. Ele foi lá posto precisamente para não fazer os erros que anteriores fizeram. Não só superou todos os anteriores juntos em asneira e incompetencia como o faz com dolo, com premeditação. Vir agora para aqui chorar que não se fala dos governos anteriores para defender o pior governo desde o 25 de Abril é pobre em termos argumentativos.
    Quanto à camara de Lisboa e actual gestão, bom, tem o direito de não estar satisfeito e não perceber o quanto Lisboa melhorou depois da entrada de António Costa, mas garanto-lhe que essa sua opinião não é partilhada pela larga maioria dos lisboetas.

  2. cristof9 diz:

    Ao ler as queixas de observadores sobre a benevolência dos media para com os “esquerdistas” em contraste com o exagero das previsões sobre o desempenho do governo (lembremos as previsoes de novo resgate+ chumbo das revisões da troika a cada sessão) tenho que além da natural visão que temos sempre do valor da equipa adversaria e do arbitro, de lhes dar alguma razão :nunca se equaciona o estado em que isto foi deixado pelos governos criminosos anteriores como também nunca se fala na irresponsável gestão de Lisboa pelo próximo 1º ministro. Deus nos livre que faça o mesmo na gestão nacional.

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