Piropos e piropos

Este vídeo, em que uma rapariga de 24 anos passeia por Nova Iorque e recebe 10 piropos por hora,  levanta questões interessantes e remete para culturas e tradições ancestrais.  Fernanda Câncio escreve sobre o assunto no DN e o seu artigo suscita  uma pergunta colocada aqui: “É tudo assédio?”. A minha resposta é “Não,. Não é tudo assédio”.

No Alentejo da minha adolescência – cidade na fronteira com Espanha, um colégio de freiras (de clausura) só para raparigas, outro colégio só para rapazes, situados na mesma rua – uma jovem a quem ninguém dirigisse um piropo teria razões para se questionar sobre o que estaria errado consigo. Talvez ficasse até deprimida ou insegura…

Nos “bailes” do Clube e do Grémio da cidade as raparigas eram acompanhadas pelos pais e alguns deles não despegavam o olho da pista de dança para verem se o ritmo do tango ou da valsa aproximava demasiado os corpos…

A “repressão” sexual era rigorosa (mesmo assim, aconteciam “coisas”) mas o  piropo era uma coisa natural e aceite. Também é verdade que naquele meio nenhum rapaz   se atreveria a dizer a uma rapariga “lambia-te toda” como relata Fernanda Câncio no seu artigo. (E se algum “estrangeirado” (só podia sê-lo) se saísse com uma dessas, talvez a rapariga nem percebesse… Eram outras “culturas”!).

Mas lá na terra não havia piropos só para raparigas. Era vulgar ouvir brejeirices de um homem para uma mulher e ela responder-lhe no mesmo tom. E mesmo  ser ela a “provocadora”, como neste curto e expressivo diálogo, em que ela pergunta, à laia de cumprimento: “Passaste bem a noite, António?” e ele lhe responde: “Tinha sido melhor se a passasse contigo”. Ou daquele espanhol que diz à portuguesa (pensando talvez que ela se ficaria) “Que buena noche dormiria contigo!” e ela lhes responde no seu castelhano perfeito: “E dormias, bruto?”

Pode ser impressão minha, marcada pelos anos de proximidade a Espanha, que a língua portuguesa não se presta muito para piropos. Já o castelhano sim. Guardo ainda um velho guardanapo  com um piropo em espanhol, escrito à mão, por um galanteador (tinha eu cerca de 17 anos) que achei lindo: “Desde que vi una estrella ando siempre suspirando!”.

Claro que este tipo de piropos nada tem a ver com o tipo de perseguição e assédio acompanhado ou não de manifestações verbais de natureza  sexual ou outra, de algum modo ofensiva, como se vêem no video. Mas isso não são piropos, são provocações ou manifestações de distúrbios contra os quais não há muito a fazer.

Há piropos e piropos.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Artes e Cultura, Sociedade. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s