Comissão parlamentar de Inquérito ao BES: querer saber tudo resulta em não saber nada

BES 2Começaram as audições na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES.

As palavras do ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, sobre a audição para que foi convocado pela Comissão são elucidativas sobre a ausência de definição de objectivos precisos e claros da Comissão,  bem como de uma metodologia adequada para os atingir. Disse Teixeira dos Santos à RTP que irá à Comissão de Inquérito mas  “não sabe bem ao que vai“.

Os coordenadores dos diversos partidos na Comissão também são vagos nas respostas que deram ao Expresso quando perguntados sobre “Qual deve ser o principal alvo dos trabalhos da comissão: a supervisão ou gestão do grupo?”, apontando para objectivos  vagos como “descobrir a verdade sobre a gestão e a supervisão”.

O rol de personalidades (130) convocadas pela Comissão e a ordenação das respectivas audições contribuem também para a percepção de que não existe um foi condutor para as audições e para a investigação. Sem objectivos muito bem definidos sobre o que pretende obter de cada um dos inquiridos tendo em conta o enquadramento que justifica as respectivas audições, dificilmente será possível dar sentido a tantos depoimentos.

Uma investigação, seja de âmbito académico, judicial ou outro, pressupõe várias etapas e o recurso a várias fontes. Esse é um trabalho prévio que requer o levantamento, a ordenação e a análise da documentação disponível que deve ser feita tendo em conta objectivos concretos e previamente definidos. Esse trabalho é essencial antes de se realizarem as entrevistas (neste caso, as audições) e é ele que determina quem deve ser ouvido, sobre que aspectos da investigação e em que momento deve ser ouvido.

No caso da Comissão Parlamentar de Inquérito, os deputados  lançam-se nas audições com grande parte do trabalho prévio por fazer. Tratando-se para mais de audições colectivas, com os inquiridos sujeitos a perguntas contraditórias e muitas vezes inquinadas por preconceitos políticos e partidários, o rigor e a autenticidade das respostas ficam prejudicados.

A tudo isto acresce o facto de as audições serem transmitidas pelas televisões, o que lhes confere uma dimensão de espectáculo que se sobrepõe ou se confunde com a substância do que é perguntado e respondido. Cada partido, cada deputado e cada inquirido, não escapará à tentação de fazer da sua intervenção uma exibição pessoal, contando obter dividendos a nível individual e partidário.

No final, será o habitual em outras comissões de inquérito. A “verdade” apurada será a “verdade” de cada partido com a maioria a fazer vencer a sua.

Será uma oportunidade perdida. Eventualmente ficarão a conhecer-se episódios mais ou menos picantes, uns empurrarão para outros, no final haverá um extenso relatório, com imensas citações e numerosos anexos. Muita informação mas pouco conhecimento.

O caso BES continuará para além da Comissão

 

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