Ricardo Salgado deve estar a tomar notas

As audições na Comissão Parlamentar de Inquérito ao  caso BES têm corrido com vivacidade, com os deputados a mostrarem ter feito trabalho de casa. Persiste, no entanto, a dúvida sobre a pertinência de terem começado  pelos supervisores – Governador do Banco de Portugal, Presidente do Instituto de Seguros e Presidente da Comissão de Mercado de Valores. Foram muitas horas de perguntas e respostas, muitas repetições, algumas contradições mas, em geral, sem novidades.

O governador do BdP desculpou-se com falta de poder para cumprir o dever de “retirar a idoneidade” a Ricardo Salgado e afastá-lo em tempo útil, evitando a derrocada do BES. Queixou-se da legislação que não permite uma supervisão eficaz e protegeu o governo e a ministra, assumindo a responsabilidade da decisão da resolução do BES, embora lhe tenha fugido a boca para a verdade ao deixar escapar que a decisão foi “política”.

O presidente da CMVM disfarçou mal o facto de ter sido o “ultimo a saber” (através do comentário de Marques Mendes na SIC) da resolução do  banco e acabou a dizer que se soubesse a tempo teria protegido os investidores. Não duvida da fuga de informação privilegiada que permitiu a corrida à venda das acções, precipitando o descalabro do BES. Percebe-se quem é o “marido enganado” desta história.

Teixeira dos Santos, em poucas palavras, explicou como era impossível a ministra das Finanças não ter orientado e participado na resolução do BES  e lembrou a deputados da maioria que tentaram recuperar a “assombração Sócrates” que o BES investiu mais  nos submarinos do que nas PPPs e que em termos de obras públicas o BES é dos últimos da lista na concessão de crédito.

A audição mais significativa foi, porém, a da ministra das Finanças que confirmou a sua difícil relação com a verdade, já identificada no caso dos swaps e noutras audições parlamentares. Desta vez, a ministra repetiu à exaustão que não foi ela nem o governo que decidiram a resolução do BES mas sim o governador do BdP que apenas a informou. Claro que ninguém acredita nessa história, como bem lhe demonstraram vários deputados de vários partidos. A ministra cai em contradição frequentes vezes e quando confrontada com evidências sobre essas contradições faz fugas para a frente e joga com as palavras como se os interlocutores fossem parvos.

Sem dúvida que Maria Luís, é arguta e usa a informação privilegiada de que dispõe a seu favor e do governo, atropelando, se necessário, os factos. A facilidade com que diz e desdiz, por exemplo, que não sabia de nada sobre o BES antes de ler algumas notícias, a convicção com que afirma que a responsabilidade da decisão  é toda do governador do BdP e que o governo não interferiu, como se fosse possível acabar com um banco como o BES sem que o governo tenha tido a palavra definitiva, tornam-na uma interlocutora temível e “perigosa”.

A boa surpresa da Comissão é o facto de os deputados da maioria terem sido capazes de algum distanciamento partidário colocando, em geral, perguntas pertinentes, sem a tentativa habitual de “protecção” e alinhamento com o discurso oficial.

O caso BES ainda agora começou e Ricardo Salgado deve estar a tomar notas.

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