As notícias sobre a “queda do PS” soam como manifestamente exageradas

Muitos comentadores têm afirmado que o PS vai ser fortemente penalizado pela prisão preventiva de José Sócrates.

Não são ainda conhecidos os factos concretos imputados ao ex-primeiro-ministro. Não é indiferente, por exemplo, saber se dizem respeito a actos que tenha praticado na qualidade de primeiro-ministro ou na sua vida e relações pessoais. Ainda assim, vale a pena analisar alguns argumentos ouvidos na rádio e na televisão, e lidos em jornais, sobre os presumíveis efeitos negativos no PS da sua  prisão preventiva.

O argumento mais citado é o de que António Costa tem de “limpar” a sua direcção de pessoas que estiveram “na primeira linha” dos  governos Sócrates – os chamados “socráticos”. Como se uma eventual condenação de Sócrates se estendesse a todos os seus ministros, aos seus amigos e até conhecidos.

Nota-se neste argumento a dualidade de critérios relativamente a antigos governantes, antigos deputados e até um conselheiro de Estado arguidos em processos com efeitos graves na economia nacional, como sejam, os casos BES e BPN, este último “salpicando” mesmo um presidente da república.

E se  “a justiça tem de ser igual para todos”,  e “ser arguido não significa ser culpado”, o argumento  usado para afastar os “socráticos”  dever-se-ia estender ao PSD e conduziria a que Passos Coelho teria de afastar do governo e das administrações do sector público todas as pessoas que trabalharam no BES ou que, de alguma maneira, eram próximos de Ricardo Salgado e de outros administradores do banco e do Grupo GES. O mesmo relativamente aos sócios e amigos dos arguidos do BPN.

Outros, estendem o argumento à demissão do ministro Miguel Macedo que se teria demitido por ser sócio e amigo de alguns dos arguidos no caso dos “vistos dourados”, o que, em última análise, deveria levar Costa a demitir-se da liderança do PS. Ora,  na declaração em que se demitiu, Miguel Macedo invocou o facto de a sua autoridade ter ficado “diminuída: “Um ministro tem que ter sempre uma forte autoridade para o exercício pleno das suas funções e essa autoridade ficou diminuída”, afirmou Miguel Macedo. Não existe aqui qualquer paralelo com António Costa.

De facto, um primeiro-ministro é politicamente responsável, para o bem e para o mal, pelos actos do seu governo. Porém, essa responsabilidade política não abrange igualmente todo o governo nem cada ministro é responsável pelos actos pessoais ou institucionais do primeiro ministro.

Daí que a tentativa de contaminar António Costa e os ditos “socráticos” com a prisão preventiva de José Sócrates constitui uma visão distorcida que, levada ao extremo, conduziria a uma refundação do PS através do “varrimento” dos rostos do partido nos últimos sete anos.

Fazem bem  António Costa e o PS ao não se deixarem contaminar por uma qualquer tentação de demarcação face ao que  Sócrates foi e continua a ser para o partido. Porque, como bem disse António Costa, a história não se apaga nem se reescreve. Aconteça o que acontecer, no PS e na História geral dos partidos e do mundo, os nomes e os rostos do passado são património imaterial das instituições.

Daí que declarações de personalidades tão próximas de José Sócrates como  Vieira da Silva, que proferiu as palavras mais comovidas e sentidas, de Jorge Lacão e de João Galamba, entre outros, para além de António Costa, são um sinal de que o PS encontrou o registo certo para exprimir a sua tristeza, sem se desviar daquela que é a sua missão e vocação: preparar-se para ser alternativa à maioria PSD/CDS.

Aquela mulher que telefonou hoje para o fórum de uma rádio é bem capaz de ter razão: “as notícias sobre a queda do PS são manifestamente exageradas”.

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2 respostas a As notícias sobre a “queda do PS” soam como manifestamente exageradas

  1. cristof9 diz:

    Se fosse o responsavel da campamha adiava a compra da maquina de nevoeiro para a coroação do Costa, pode tornar-se uma despesa inutil

  2. J. Madeira diz:

    Óbviamente, a direita e os seus comentadores à falta de melhores argumentos,
    agarram-se a esta tábua de salvação que lhes é oferecida, para de imediato
    começarem a fazer “exigências” sobre quem deve estar ou não na linha da frente
    do PS, a raiva é tão grande que, desejam que os mais combativos e competentes
    elementos da bancada do PS, desapareçam de lá! Podem esperar sentados !!!

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