A justiça não protegeu, como lhe competia, o cidadão José Sócrates

Ao expôr José Sócrates da maneira que o fez, primeiro, à chegada ao aeroporto com  televisões à espreita, depois, quando o meteu na cadeia como preso preventivo, a Justiça deu um tiro no pé porque em vez de a discussão pública se centrar na substância dos acontecimentos que levaram à detenção do ex-primeiro-ministro, o que se discute são os métodos da justiça e a sua promíscua relação com os media.

Isso mostra que o Ministério Público não avaliou suficientemente as consequências de não ter sido capaz, ou não ter querido, acautelar a protecção  do cidadão José  Sócrates (ao contrário do que fez com os outros arguidos no mesmo processo, cuja detenção não foi conhecida previamente). Se Sócrates se destacava neste processo por ter sido primeiro-ministro,  mais uma razão para a Justiça usar de todas as cautelas para o proteger como era seu dever, visto Sócrates não ter perdido os seus direitos de cidadão.

Ao contrário, a Justiça não só não protegeu um dos cidadãos à sua guarda como depois de o ter encarcerado, continua a alimentar  jornais e  televisões com fugas de informação cirúrgicas sobre detalhes do processo,

A prisão preventiva de Sócrates na cadeia de Évora e as notícias dos pormenores sobre o seu dia-a-dia na prisão, com imagens da cela, temperatura da água do banho, ementa das refeições, iguais em todos os jornais, sinal de terem sido autorizadas pela própria cadeia, são talvez um dado com que  a Justiça não contou.

É que o dano causado ao cidadão José Sócrates pela exposição de que foi alvo dificilmente poderá ir mais longe. A sua privacidade continua a ser violada (que significado tem  informar os media que Sócrates não tem água quente para o banho?) mas a partir de agora o “contraditório” que a Justiça lhe negou nesta fase, vai ser assumido pelos visitantes  que, embora menos exuberantemente que Mário Soares, não deixarão de, explícita ou simbolicamente, fazer.

Enquanto os jornais dirão cada dia que Sócrates cometeu mais este ou aquele  delito, os seus visitantes dirão que confiam na sua inocência e ninguém acreditará no chavão “a Justiça está a funcionar”.

As consequências da incapacidade da Justiça de perceber que lhe competia proteger o cidadão José Sócrates em vez de o expôr à voragem dos media voltam-se contra a própria Justiça.

Houve um tempo em que me interrogava sobre as razões pelas quais  os agentes da justiça não conseguiam organizar  de uma maneira profissional e transparente a sua relação com os media. Mas depois de alguns anos de  estudo e investigação sobre essas relações e  tendo acompanhado de perto, enquanto membro da ERC, casos como o Freeport e o Face Oculta e de ultimamente integrar  um projecto de investigação em que essa relação constitui um dos eixos de análise, passei a compreender as razões dessa aparente incapacidade da Justiça.

O segredo de justiça serve à justiça e serve aos media. Não serve nem à investigação nem aos cidadãos. Ajuda a criar percepções na sociedade, geralmente de condenação antecipada dos arguidos. Sem segredo de justiça, a Justiça teria de ser transparente. Coisa que manifestamente não é.

O pouco que neste processo  se sabe do lado da defesa foi dito pelo advogado de José Sócrates. Com nome e rosto, isto é, de maneira transparente. Honra lhe seja feita.

 

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11 respostas a A justiça não protegeu, como lhe competia, o cidadão José Sócrates

  1. Oh Spartacus, entendi mal a sua ironia, não reparei que era uma citação da própria.

  2. Caro RH, era precisamente isso que eles pretendiam; O Sr. disse-o com todos os dentes à mostra, ainda lhe estou a ver o sorriso um mês depois.
    Votos de que não se enlameie em 2015, é o melhor que lhe posso desejar.

  3. Só agora descobri este espaço, mas tenho uma pergunta para o Spartacus: Oh homem, que “substância dos acontecimentos” é que o sr queria que se discutisse? A que vem nos jornais através das fugas de informação? É que mais de um mês depois, JS ainda não foi acusado de nada! Julgo da maneira como as coisas estão, é mais decente discutir o sexo dos anjos!

    Na minha modesta opinião, o que é pertinente mesmo neste caso é a actuação da justiça e a relação promiscua desta com os média, da qual tudo indica, se aproveita para tirar nabos da púcara, à falta de melhores recursos, ou pior, para manipular o que que quer que pretendam que se transforme em factos, desde que estes corroborem um juízo à partida já feito.
    Hoje é o JS que leva com esta justiça. amanhã é o sr. ou eu, ou alguém que nos é próximo.

    Ainda acha que não vale a pena falar disto?

  4. maria salgado diz:

    Os Grandes HOMENS da História foram aqueles que em Praça Publica foram “linchados” A invulgaridade de José Sócrates, perfaz o carácter do medíocre. O mundo, a Europa, Portugal está atravessar uma crise de “crânios” e aquele que aparece é “afogado” da maneira mais conveniente e de preferência para sempre.

  5. cristof9 diz:

    E pela esposa do causidico no Facebook. A justiça na Inglaterra e EUA ainda há mais promiscuidade e circo mediático que cá, o Watergate ou Monica até arrepelava os cabelos das nossas consciências puras.

  6. J. Madeira diz:

    Muito bem analisado, a Justiça está a funcionar maléficamente, não está esquecida
    a “alegria” da PGR com as pesadas condenações aplicadas no julgamento da famo-
    sa operação “face oculta”, estando em curso recursos sobre as condenações base-
    adas nas convicções dos juízes, independentemente do que foi provado ou não!
    Em relação ao caso do momento, é de salientar mau gosto do sindicalista do MP ao
    criticar o desabafo do Dr. Mário Soares sobre as condições da detenção e prisão
    de José Sócrates! Todos somos iguais perante a Lei e, os magistrados não são
    exceção, até porque, há bons e maus profissionais em todas as actividades!!!

  7. Spartacus diz:

    “em vez de a discussão pública se centrar na substância dos acontecimentos que levaram à detenção do ex-primeiro-ministro, o que se discute são os métodos da justiça e a sua promiscua relação com os media”, é precisamente isso que a senhora, entre outros, tem andado a fazer desde domingo.

  8. RH diz:

    Dêem as voltas que quiserem, não conseguem limpar-lhe a imagem, enlameando tudo o resto. Aceitem isso.

  9. HA MUITO TEMPO QUE NÃO VEJO UM ARTIGO TAMBEM ESCRITO E COM TANTA VERDADE ……
    ……

  10. José Rodrigues diz:

    Sem dúvida!…Além dos pormenores ( chamemos-lhe assim….) que não casam. Exemplos:

    – A mãe de JS, foi ouvida no processo, ou entendeu-se que a Senhora está senil e não teria noção das transferências que andaria a fazer?
    – Quando avança com as detenções dos “cumplices” de JS, a investigação não sabia que ele estava em Paris, achou que não iria saber de nada, ou considerou irrelevente ?
    – Foram feitas buscas na casa de JS em Paris, ou entendeu-se que não seria o local indicado para o homem “esconder provas” ?

    Mas estas inconsistências não as vejo discutidas nos média. Refugiam-se por detrás do chavão de que são apenas o mensageiro e não percebem ( ou não querem perceber…) que funcionam como mercenários – dão-lhes uma arma para disparar contra alguém; eles disparam, atingem o alvo, culpam quem lhes deu a arma, e vão cobrar o “serviço” às audiências!

    Cumprimentos,

    José Rodrigues

  11. João diz:

    Muito bem.

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