António Costa e a arte de liderar

Discurso de António Costa no primeiro dia do XX Congresso do PS

Se há uma palavra que pode  marcar a liderança de António Costa confirmada de maneira eloquente neste Congresso do PS, é a palavra “autoridade”. De facto, só um líder dotado de grande autoridade conseguiria levar milhares de militantes reunidos em congresso, local apropriado para manifestação de emoções incontidas, a seguir a orientação do líder e a calar a expressão de sentimentos de revolta ou simplesmente de tristeza que se anunciavam como reacção colectiva à detenção de José Sócrates.

Com inteligência e perspicácia, aliadas a um profundo conhecimento do seu partido e a uma vasta cultura democrática, António Costa usou a autoridade que lhe advém da legitimidade adquirida nas eleições primárias e a experiência política que todos lhe reconhecem para unir o partido em torno da ideia de que o “choque brutal” causado pela detenção de Sócrates não podia sobrepôr-se à prossecução dos objectivos do PS e à afirmação dos seus valores e da sua estratégia.

Direi até que o Congresso veio em boa altura porque coincidiu com a consagração de um líder à altura de enfrentar o duro revés que atingiu todo o partido. É difícil imaginar o que teria acontecido se nesta altura o líder fosse outro, sem o carisma, a autoridade e a inteligência de António Costa, que soube aproveitar da melhor maneira o palco oferecido pelo Congresso para recentrar as atenções do País no que verdadeiramente interessa ao futuro dos portugueses.

O choque provocado pelo discurso final de António Costa nos partidos da maioria e nos partidos à esquerda do PS  ficou bem visível nas declarações que proferiram à saída do Congresso. Marco António Costa e Nuno Melo, não disfarçaram a irritação causada pela crítica certeira à governação PSD/CDS, feita por António Costa. Também a esquerda à esquerda do PS não foi capaz de dar  substância às suas críticas. Os primeiros, queriam que Costa ignorasse o momento presente e o desastre da actual governação e falasse antes dos governos de Sócrates, como se eles próprios e o seu governo não existissem; os últimos pareciam não ter ouvido sequer o discurso de Costa, limitando-se a repetir o que sempre disseram sobre o PS antes e depois de qualquer congresso e de qualquer líder.

António Costa  tem sido capaz de se manter fiel à estratégia que definiu desde o momento em que anunciou a sua candidatura à liderança do PS, não cedendo à crítica sistemática daqueles – jornalistas, comentadores e partidos da oposição – que tentam impôr-lhe as suas  agendas tentando forçá-lo a dizer já qual é o seu programa de governo, o que fará com a dívida, o défice, as pensões e os salários, e emprego, o IRS, o IVA, a saúde, a educação e tudo o mais que só um irresponsável podia prometer já.

Ninguém diria há uma semana que Costa seria capaz de “eclipsar” Sócrates. Mas foi o que aconteceu.

(Fotografia de Luís Barra)

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