Nos 150 anos do Diário de Notícias

DN logo_150anosO Diário de Notícias completou 150 anos. Entre Abril de 2001 e Março de 2004, fui provedora dos leitores deste jornal, cargo que exerci a convite do então director, Mário Bettencourt Resendes, sucedendo a Mário Mesquita e a Diogo Pires Aurélio.

Foram anos marcados por acontecimentos relevantes, entre os quais, a nível internacional, o 11 de Setembro e a Guerra do Iraque e, a nível nacional, as eleições autárquicas e legislativas de 2001 e 2002, e o Processo Casa Pia.

Fui reler a última coluna que escrevi como provedora, da qual recorto os seguintes passos.

“(…) Ao longo destes três anos, o DN não deixou de seguir algumas das tendências que marcam, negativamente, o jornalismo dos nossos dias. Uma dos mais constantes é a utilização de fontes não identificadas na cobertura da actividade política, que não é mais do que uma forma de camuflar a dependência de fontes oficiais. Essa prática, que não é exclusiva do DN, reduz a política à intriga e à luta entre actores sem rosto,  descredibilizando o discurso político e a democracia. Essa prática viria a atingir a sua expressão mais promíscua na cobertura do Processo Casa Pia, levando o jornalismo a um grau de instrumentalização sem precedentes.

Contudo, esse jornalismo sem regras conviveu, lado a lado, no DN, com excelentes trabalhos realizados em áreas menos “visíveis” mas não menos importantes. Foi, sobretudo, nos temas da Sociedade, da Cultura e da Ciência, que o DN afirmou melhor a capacidade de levar a cabo um jornalismo mais voltado para os cidadãos, não obstante esses temas nem sempre terem merecido o tempo (de investigação) e o espaço que o seu interesse justificava.

(…) Raramente os jornalistas do DN e as suas chefias reconheceram que as suas decisões podiam não ser as mais adequadas e, muito menos, assumiram que tivessem errado. Mas, a provedora dispôs sempre de toda a liberdade e autonomia para exercer a sua função crítica. 

Um dos aspectos mais negativos da relação entre o jornal e os seus leitores, repetidas vezes anotado nesta coluna, parece ter-se atenuado, senão mesmo desaparecido. Trata-se das Notas de Redacção que, algumas vezes, acompanharam queixas de leitores publicadas na secção de cartas. Algumas dessas Notas foram de uma arrogância insuportável, deixando os leitores sem poderem defender-se. Ora, pelo menos no tom, isso foi corrigido. Outras cartas que não foram publicadas motivaram queixas frequentes. Os leitores dificilmente aceitaram ser excluídos de um espaço que lhes é destinado sem conhecerem as razões da exclusão. Alguns terão abandonado a leitura do jornal. (…)” (in Para Compreender o jornalismo (2006) Edições Minerva Coimbra. ISBN: 9789727981595)

Sob a direcção de André Macedo, o DN encontra-se novamente num momento de reposicionamento numa altura difícil para o sector, em particular para a imprensa. O País precisa do DN porque este não é um jornal qualquer, é parte da sua própria história.

É bom que os seus accionistas, a sua administração, a sua direcção e todos quanto nele trabalham tenham consciência dessa singularidade e saibam defendê-lo das ameaças que periodicamente sobre ele se projectam.

 

 

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