Contradição? qual contradição?

 jornal i, 05-01-2014 (1.ª página)                                                        (jornal i, 05-01-2014 (1.ª página)

Neste título tudo é manipulado e manipulador. Veja-se a construção da frase principal: “Seis perguntas chegaram para José Sócrates cair em contradição“. Desconstruindo o que o jornal quis dizer, temos: se em seis perguntas Sócrates cai em contradição é porque mente pelo que não é preciso perguntar-lhe mais nada, estas respostas bastam. Logo, Sócrates é culpado.

Mas o mais esclarecedor sobre o efeito que o título pretende atingir encontra-se  na frase “cair em contradição“.

“Cair em contradição”significa uma mesma pessoa dizer uma coisa e o seu contrário. Só que, lendo o texto no interior do jornal o que se encontra não é uma comparação entre o que “Sócrates afirmou nas respostas à TVI e o que disse no passado sobre os mesmos assuntos” (como diz o jornal) mas sim  uma comparação das respostas de Sócrates com declarações dos seus advogados  e do advogado do motorista, nem sequer sobre as mesmas questões, visto que os advogados não foram questionados sobre as questões a que Sócrates respondeu. As “contradições” (se as houvesse) nunca seriam de Sócrates consigo mesmo, como sugere a frase “Sócrates cai em contradições”, quando muito existiriam contradições entre Sócrates e os  advogados. Mas nem isso se verifica.

Em termos jornalísticos é um título não sustentado no texto da notícia. Uma falha deontológica grave. Mas a falta de rigor não fica por aqui. Veja-se este exemplo. Diz o jornal:

“A proibição das entrevistas As contradições de José Sócrates não se ficam pela carta à TVI. No fim-de-semana, o advogado de defesa Pedro Delille disse aos jornalistas que as seis respostas do ex-primeiro-ministro “não foram uma entrevista”. Porém, Sócrates escreve várias vezes, na carta, que se trata de uma entrevista e a primeira frase é mesmo: “Dou esta entrevista em legítima defesa”.

Como é óbvio, Sócrates, usa o termo “entrevista” tal como a própria TVI e a generalidade dos jornalistas, apesar de não se tratar de uma entrevista jornalística entendida em sentido “puro”, mas sim de um questionário, como escrevi aqui, Considerar isto uma contradição de Sócrates é simplesmente ridículo. Pois se nem alguns  jornalistas parecem saber distinguir uma entrevista de um questionário porque é que Sócrates (a quem foi pedida uma “entrevista”) pode ser acusado de “cair em contradição” por dizer que deu uma entrevista em vez de ter dito que respondeu a um questionário?

A “notícia” do jornal i é, pois, manifestamente forçada e pouco rigorosa. De facto, a única comparação feita no texto  entre algo  dito por Sócrates “no passado” e agora, à TVI, respeita aos “empréstimos” de Carlos Santos Silva e mesmo aí não há qualquer contradição, uma vez que pedir um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos (CGD)”para ir viver um ano para Paris, sem nenhuma responsabilidade a nível profissional”, (como afirmou em 2013) não é contraditório nem incompatível com pedir ajuda ao amigo.

Leia-se esta parte do texto do iAs “dificuldades de liquidez”, segundo a carta do ex-primeiro–ministro, aconteceram quando teve “parte da família em Paris” e no período em que viveu entre a capital francesa e Lisboa. Porém, em 2013, numa entrevista à RTP, Sócrates admitiu ter pedido um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos (CGD), depois de sair derrotado das eleições legislativas de 2011. “A primeira coisa que fiz quando saí de primeiro-ministro foi pedir ao meu banco um empréstimo para ir viver um ano para Paris, sem nenhuma responsabilidade a nível profissional (…)”.

Onde é que está a contradição? Mas a cereja em cima do bolo, ou melhor, a “chave” para a compreensão da “notícia” encontra-se na seguinte frase:

Em Paris, onde estudava Filosofia Política, e apesar das “dificuldades de liquidez”, Sócrates gastaria, de acordo com as contas do “Correio da Manhã”, 15 mil euros por mês. E, diz  o “Sol”, frequentava os mais caros restaurantes da capital francesa.”  (sublinhados meus)

Ora bem, o jornal i podia ter dito logo quem eram as suas fontes inspiradoras!

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5 respostas a Contradição? qual contradição?

  1. Rukka diz:

    Cara Estrela, se as contradições de que falam têm a ver com a palavra entrevista (ser ou não ser), então é caso pra dizer: que contradições tão graves! xiça! Como é possível? Com contradições desta natureza ha que voltar a pensar na pena de morte! Como é possível permitirmos tamanhas contradições.
    Agora a sério. Isto só demonstra que, pouco a pouco, se vai notando que contra Socrates não ha NADA. Este é já um sintoma de desespero

  2. José Rodrigues diz:

    Quarenta anos depois do fim da censura, cotinuamos a ser manipulados pela informação publicada. É um paradoxo, mas o facto é que a liberdade de uns dizerem o que bem entendem, condiciona o direito de outros a ser informados.

    JR

  3. cristof9 diz:

    Os jornalistas têm a vida a ficar dificel,mas pelos exemplos ainda se ajudam a torna-la mais incerta: Só vejo razão para ainda falar no Socrates, mesmo os que clamam o segredo de justiça, pela ganancia de correr atrás dum nome que poderá prender os olhos no título, mas como acontece muito o leitor deixa de voltar a ligar aos jornais/jornalistas que abusam em prometer sangue no titulo e dar molho de tomate no texto; e por vezes para sempre.

  4. J. Madeira diz:

    Só é revelador da fragilidade da direção do referido “jornal”! Seguem os mesmos
    critérios das suas fontes de inspiração os citados pasquins/tablódes, estão ao nível
    de estagiários desejosos de botar figura, tentando “bater” no detido!
    Outra curiosidade muito evidênciada, é saber quanto emprestou o empresário ao
    seu amigo, como se isso tivesse alguma relevância para a operação “Marquês”,
    o procurador, só terá que, provar onde se deu a corrupção, quando, que contra-
    partidas, etc. etc.etc.!!!

  5. Ana Cristina Domingues diz:

    Foi assim há uns anos que cortei com o Correio da Manha. Fui atras de um titulo(subs. de refeição, julgo), comprei-o e depois lá dentro nada, Parece uma pobre comparação mas foi assim que me preveni com os títulos. em 99% dos dias da minha vida entrou um jornal diário na minha casa. Agora deixei de ter prazer de comprar o jornal diário. Continuo a comprá-los(“Publico”) mas este vicio está a deixar-me. :-(. Julgo que o meu amor pelo papel de jornal vai acabar brevemente. E a culpa é dos OCS

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