Neste título tudo é manipulado e manipulador. Veja-se a construção da frase principal: “Seis perguntas chegaram para José Sócrates cair em contradição“. Desconstruindo o que o jornal quis dizer, temos: se em seis perguntas Sócrates cai em contradição é porque mente pelo que não é preciso perguntar-lhe mais nada, estas respostas bastam. Logo, Sócrates é culpado.
Mas o mais esclarecedor sobre o efeito que o título pretende atingir encontra-se na frase “cair em contradição“.
“Cair em contradição”significa uma mesma pessoa dizer uma coisa e o seu contrário. Só que, lendo o texto no interior do jornal o que se encontra não é uma comparação entre o que “Sócrates afirmou nas respostas à TVI e o que disse no passado sobre os mesmos assuntos” (como diz o jornal) mas sim uma comparação das respostas de Sócrates com declarações dos seus advogados e do advogado do motorista, nem sequer sobre as mesmas questões, visto que os advogados não foram questionados sobre as questões a que Sócrates respondeu. As “contradições” (se as houvesse) nunca seriam de Sócrates consigo mesmo, como sugere a frase “Sócrates cai em contradições”, quando muito existiriam contradições entre Sócrates e os advogados. Mas nem isso se verifica.
Em termos jornalísticos é um título não sustentado no texto da notícia. Uma falha deontológica grave. Mas a falta de rigor não fica por aqui. Veja-se este exemplo. Diz o jornal:
“A proibição das entrevistas As contradições de José Sócrates não se ficam pela carta à TVI. No fim-de-semana, o advogado de defesa Pedro Delille disse aos jornalistas que as seis respostas do ex-primeiro-ministro “não foram uma entrevista”. Porém, Sócrates escreve várias vezes, na carta, que se trata de uma entrevista e a primeira frase é mesmo: “Dou esta entrevista em legítima defesa”.
Como é óbvio, Sócrates, usa o termo “entrevista” tal como a própria TVI e a generalidade dos jornalistas, apesar de não se tratar de uma entrevista jornalística entendida em sentido “puro”, mas sim de um questionário, como escrevi aqui, Considerar isto uma contradição de Sócrates é simplesmente ridículo. Pois se nem alguns jornalistas parecem saber distinguir uma entrevista de um questionário porque é que Sócrates (a quem foi pedida uma “entrevista”) pode ser acusado de “cair em contradição” por dizer que deu uma entrevista em vez de ter dito que respondeu a um questionário?
A “notícia” do jornal i é, pois, manifestamente forçada e pouco rigorosa. De facto, a única comparação feita no texto entre algo dito por Sócrates “no passado” e agora, à TVI, respeita aos “empréstimos” de Carlos Santos Silva e mesmo aí não há qualquer contradição, uma vez que pedir um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos (CGD)”para ir viver um ano para Paris, sem nenhuma responsabilidade a nível profissional”, (como afirmou em 2013) não é contraditório nem incompatível com pedir ajuda ao amigo.
Leia-se esta parte do texto do i: As “dificuldades de liquidez”, segundo a carta do ex-primeiro–ministro, aconteceram quando teve “parte da família em Paris” e no período em que viveu entre a capital francesa e Lisboa. Porém, em 2013, numa entrevista à RTP, Sócrates admitiu ter pedido um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos (CGD), depois de sair derrotado das eleições legislativas de 2011. “A primeira coisa que fiz quando saí de primeiro-ministro foi pedir ao meu banco um empréstimo para ir viver um ano para Paris, sem nenhuma responsabilidade a nível profissional (…)”.
Onde é que está a contradição? Mas a cereja em cima do bolo, ou melhor, a “chave” para a compreensão da “notícia” encontra-se na seguinte frase:
“Em Paris, onde estudava Filosofia Política, e apesar das “dificuldades de liquidez”, Sócrates gastaria, de acordo com as contas do “Correio da Manhã”, 15 mil euros por mês. E, diz o “Sol”, frequentava os mais caros restaurantes da capital francesa.” (sublinhados meus)
Ora bem, o jornal i podia ter dito logo quem eram as suas fontes inspiradoras!