A irrelevância do discurso presidencial

Cavaco-Silva5Nuno Morais Sarmento, no seu espaço de comentário na RTP1, criticou esta quinta-feira as televisões privadas por não terem transmitido em directo a mensagem de ano novo do Presidente da República. Se não existisse televisão pública, disse Morais Sarmento, a transmissão directa dessa mensagem como outros actos de natureza idêntica ficariam à mercê da vontade de um director e dos seus critérios.

O exemplo invocado por Morais Sarmento pode não ser muito convincente, dado o facto de as mensagens do Presidente se terem tornado  pouco interessantes do ponto de vista do interesse jornalístico. Mas, precisamente por isso, ele pode ser um bom exemplo para marcar a diferença da televisão pública face às privadas.

Na verdade, por muito desinteressante e banal que seja a mensagem de ano novo do Presidente da República ela constitui um acto simbólico, por ser o momento em que o Presidente se dirige aos portugueses expondo o seu pensamento sobre o País. Trata-se de um ritual cuja solenidade lhe advém em grande parte do enquadramento visual e sonoro que lhe é dado pela televisão pública, através do hino e da bandeira no final da fala do Presidente.

Acresce que uma declaração oficial do Presidente reveste-se sempre de valor informativo, seja pelo seu conteúdo substantivo, seja por ausência dele. Não é por acaso que mesmo não tendo procedido à sua transmissão directa, as televisões privadas não deixaram de convocar os seus comentadores para, nos canais informativos do cabo, analisarem a mensagem do Presidente.

A transmissão de mensagens de órgãos de soberania, como é o caso da mensagem de ano novo do Presidente da República ou de outras que o Presidente, o  governo e a Assembleia da República pretendam divulgar, é uma das atribuições que a lei da televisão define à televisão pública e não se confunde com qualquer tipo de governamentalização. De facto, é do interesse público que os órgãos de soberania possam em momentos específicos dirigir-se aos cidadãos em directo e sem o filtro editorial dos jornalistas. Mas seria absurdo obrigar as televisões privadas a realizarem essa missão.

Apesar disso, tem sido habitual as televisões privadas emitirem em directo a mensagem de ano novo do Presidente. O facto de este ano não o terem feito é um sinal de que o discurso do Presidente se tornou irrelevante, o que não deixa de ser negativo.

Seria, contudo, redutor que a marca principal da televisão pública se limitasse à transmissão directa das mensagens do Presidente da República.

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6 respostas a A irrelevância do discurso presidencial

  1. nuno diz:

    Pois, Estrela Serrano, mais ou menos. Isso não é novidade nenhuma. Mas essa Europa tem construtores e esses construtores têm nomes, e no campo da comunicação social até terá o nome de, entre outros, Augusto Santos SIlva, cujo partido agora vai colhendo bastante do que semeou nessa área. Lembro-a até que recentemente a Comissão Europeia disse que a adesão ao euro era “irrevogável”. E, desde Paulo Portas, que todos sabemos bem o que quer dizer irrevogável. Ou seja, quer o que está mal, quer o que está mal pode mudar-se.

    Há tempos ouviamos uma malcriadíssima e embirrentíssima vedeta do jornalismo português (e aposto que um ser humano asqueroso e a evitar cuidadosamente) admirar-se com os ritmos e qualidades dos últimos despedimentos de jornalistas. Sem que antes tivesse dado pelo fim do 1% da publicidade; do fim dos direitos de autor; do escândalo que são os estágios curriculares fomentados por professores de jornalismo; do risível que é a qualidade da formação universitária (com gente que ignora tudo que escreveram Delleuze, Bourdieu, Derrida, Foucault, Merleau-Ponti, Saussure, etc. etc., embora os tenham obrigatoriamente estudado); dos mecanismos de reprodução das chefias e dos patrões enquanto único garante do acesso à profissão de jornalista; nos emolumentos a pagar por órgãos de comunicação social, que impede a notoriedade e manutenção de publicações que não tenham forte suporte financeiro, da ligeireza com que medíocres comissários partidários assumem lugares de direcção e chefia e escolhem quem fica e quem sai.

    Curiosamente, Estrela Serrano, que não é marxista, aponta uma estrutura, como impedimento ao pensar o que devia ser a comunicação social. Numa Europa pós-democrática, pós-política, só se justifica pensar o jornalismo contra o que está. Qual o interesse da descrição do que temos? Continuar a semear a naturalização e inevitabilidade de um discurso e dos seus dispositivos de poder? Enquanto académica – mesmo numa área que privilegia a acção e os resultados de mercado em detrimento da reflexão, das causas e consequências – não acredito que não identifique a perversidade cúmplice (mesmo que involuntária) dessas análises.

    Tudo que for descrição é fútil, e apenas serve o efeito boomerangue. Como quando – perante Sócrates ou um partido que aprovou várias das disposições que agora o atingem em termos de violação dos direitos humanos – um Vital Moreira manifesta preocupação em arranjar meios de penalizar os jornalistas por violação do segredo de Justiça.

    Como se diria num Charlie Hebdo nacional, é a completa indigência intelectual dos escritos, pensamento e refexão democrática do Professor Doutor de Coimbra. Algo assim como se um catedrático de penal defendesse penas maiores para as mulas que transportam a droga do que para quem dirige os cartéis.

  2. Percebo o seu ponto de vista mas estou a falar da realidade que temos e não de um outro sistema político e mediático que não é o da Europa em que nos inserimos. As televisões privadas para cederem tempo de antena ao Estado cobram por isso, dado que vivem precisamente da venda de espaços à publicidade ou a patrocínios, etc.. Se ler o que tenho escrito sobre o que penso do sistema mediático e perceberá que sou até muito crítica do modelo.

  3. nuno diz:

    É desculpabilização é. É demissão de pensar entre o que é e o que deve ser. É que deste modo, por causa do sacrossanto mercado, não estou a disponibilizar espaço físico público que pode estar ocupado por outros projectos com missões mais sérias.

    Acha mesmo que Portugal tem mercado de espectadores e leitores com dimensão suficentes para manter projectos que não optem em grande medida pelo tabloidismo? Já nos esquecemos de pivôs do canal quase apelando à invasão do aquaparque, quando duas crianças lá morreram?

    Isso parece o discurso dos directores das TV aquando da cobertura das campanhas eleitorais: Que o funcionamento da democracia não se compadece com o mercado. Ora, a mim interesam-me a democracia e a liberdade. Só por causa dessas é que a informação é essencial e vale a pena. E, ao contrário de outros países, Portugal não tem mercado que mantenha um jornal ou canal independente dos poderes económicos.

    Se é para se acomodar ao mercado, não vejo que vantagens exista na informação. É mais simples dar gajas nuas. Por isso mesmo o estado deve zelar pela independência dos OCS forçando a que aqueles que ocupam um espaço escasso e complicado cumpram missões específicas. Ou só as CM Tv funcionarão.

  4. Nuno, não é desculpabilização nenhuma é o sistema de economia de mercado e de liberalização dos media a funcionar. É assim na Europa, As televisões públicas têm missões específicas definidas na lei e no contrato de concessão.

  5. nuno diz:

    “De facto, é do interesse público que os órgãos de soberania possam em momentos específicos dirigir-se aos cidadãos em directo e sem o filtro editorial dos jornalistas. Mas seria absurdo obrigar as televisões privadas a realizarem essa missão.”

    Não sei pq seria absurdo as televisões privadas terem de realizar esta missão. Ocupam espaço público, que poderia estar ocupado por outras estações com outras missões mais interessantes. Isso é a desculpabilização dos modelos tablóides da informação.

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