“Jornalismo desenhado”

Charlie pós atentadoEra assim que alguns dos fundadores do Charlie Hebdo, definiam  o seu trabalho: “jornalismo desenhado” para “relatar o mundo com os traços de uma caricatura”. Outros chamam-lhe  “jornalismo satírico” ou “jornalismo de humor”.

Qualquer que seja o nome que assuma, um caricaturista não é, por definição, um jornalista, o que não significa que um jornalista não possa ser  caricaturista. Mas existe uma fronteira entre o rigor e a independência  exigidos ao jornalista e a liberdade criativa que é apanágio do caricaturista.

A caricatura, como o cartoon, são  formas de representação que exageram, distorcem e enfatizam determinadas características de uma personagem ou de uma situação. Cultivam o lado humorístico de uma dada realidade. São formas de exprimir ideias, opiniões e visões do mundo que se aproximam mais da literatura e da arte do que do jornalismo.

O jornalismo obedece a regras éticas e deontológicas, vertidas  em códigos e livros de estilo, como sejam o princípio do contraditório, a separação entre factos e opiniões e a identificação das fontes como regra. Um cartunista não está obrigado a nenhuma destas regras.

A tradição francesa da ligação entre o jornalismo, a política e a literatura explica, em grande parte,  a importância  e o desenvolvimento da caricatura e do cartoon como géneros satíricos e de opinião. De facto, ao contrário do que sucedeu no Reino Unido e nos EUA, em França o jornalismo permaneceu muito tempo sob a influência das suas esferas tradicionais de origem, a política e a literatura, marcado pela importância conferida à forma literária, longe do estilo telegráfico das notícias anglo-americanas.  Em França, as opiniões e os comentários ainda prevaleciam nas notícias e na informação em finais do século XIX.

O atentado terrorista contra o Charlie Hebdo mais do que um atentado contra a liberdade de imprensa é um atentado contra a liberdade de expressão, sendo que a liberdade de imprensa é instrumental à liberdade de expressão dado ser através dela que os cidadãos podem exercer o seu direito à sua liberdade de expressão.

Escrever ou desenhar para um  jornal não confere automaticamente o estatuto de jornalista. Os jornalistas deviam ser os primeiros a saber isso e a defenderem o seu “território”.

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Imprensa, Jornalismo, Política, Sociologia dos Média. ligação permanente.

3 respostas a “Jornalismo desenhado”

  1. RFC diz:

    Obrigado. Imprimi-o há pouco comecei a ler (tem alguma bibliografia da primeira metade do século XX. o que me interessa especialmente).

  2. RFC, deixo-lhe o link para um texto interessante sobre algumas diferenças entre o jornalismo anglo-saxónico e o jornalismo francês.http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/mediajornalismo/article/viewFile/6120/5580

  3. RFC diz:


    Acompanho-a no esforço de reflexão que faz sobre o dia seguinte, penso que resultante de novas leituras*, e também a mim me interessam os outros olhares para o campo vasto da literatura francesa até uma parte grande do século XX (desde o berço, como é o caso de Marguerite Duras; da literatura de viagens através dos vários impérios coloniais, nomeadamente através do exotismo oriental francês), em que surgiam repetidamente escritores franceses que eram jornalistas, do universo artístico e da tradição do jornalismo político que vem do século XIX e que, no post, acompanhou também a afirmação da imprensa francesa. E, no caso de França, de como tudo isso acabou por distinguir (ou contaminar?) os seus *espaços* (jornalista vs. caricaturista). Sem tempo nem engenho (?) para + esta é a questão essencial (distinguir/contaminar), para mim. Seria prudente, pois, ver-se caso a caso os jornais em França, compararem-se e identificaarem-se realidades iguais e diferentes (partindo de França, olhar para o jornalismo político, operário e partidário alemão, se a imprensa política/doutrinária portuguesa pós-DN se adaptou, e como, apesar do ritmo imposto pele censura prévia, outros), como as tecnologias eram na época transportáveis nas distâncias, ou não (a fotografia, por exemplo), como a arte pictórica poderia servir para representar o momento e o real (um typo etnográfico, uma entrevista, uma vila ou um fragmento de uma rua na cidade, um acidente ferroviário ou um incêndio… incluindo aqui a aguarela, o desenho e a caricatura), como eram possiveis depois de ser reproduzidos na rotativa, etc. A seguir, seguramente.

    Post de 7.1.2015 (oito jornalistas, sublinho)
    A democracia é uma coisa difícil. A liberdade de pensamento e de expressão é indissociável da democracia. Os que hoje barbaramente atentaram contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” matando oito jornalistas [stop, sublinhado] e dois polícias agiram como bárbaros. São terroristas que se escudam atrás de uma alegada religião, seja ela qual for. Chamar-lhes “fanáticos”, é pouco. Simplesmente, não merecem ser livres porque não respeitam a liberdade dos outros e usam a sua para matar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s