O que é, afinal, “ser Charlie”?

O canal de informação britânico Sky News recusou divulgar a capa da edição do Charlie Hebdo saída esta quarta-feira. Foi durante a intervenção de Caroline Fourest, do Charlie Hebdo, que falava em direto de Paris e reclamava por os órgãos de comunicação social britânicos não divulgarem a capa do jornal. Durante a sua intervenção, pegou num exemplar e virou-o para a câmara. A pivô da Sky informou que o canal decidira não a mostrar e retirou-a do ar pedindo desculpa aos espectadores “que possam ter ficado ofendidos”.

Não faltarão vozes acusando o canal de censura ou de “não ser Charlie”.

No momento em que todos dizem   “Je suis Charlie”, é talvez oportuno perguntar o que significa afinal dizer “Je suis Charlie”.

Qual é a palavra ou as palavras-chave que marcam o “ser Charlie”? “Liberdade” e “Pluralismo”, sem dúvida.  “Tolerância” e “Responsabilidade”, também.

“Tolerância” porque a intolerância gera os fundamentalismos e estes geram ódio que por sua vez leva à violência e ao terrorismo. “Responsabilidade” porque a liberdade tem como corolário a responsabilidade sem a qual dá lugar ao caos.

A liberdade de publicar o Charlie Hebdo é tão respeitável como a liberdade de não o mostrar ou reproduzir, como fez o Sky News e fazem outros jornais e televisões britânicos e norte-americanos. Um órgão de comunicação social não é obrigado a republicar ou citar o que outros publicam. O pluralismo é isso: existirem órgãos de comunicação social com diferentes critérios editoriais.

Será que a Sky News não “é Charlie”? E são “Charlie” aqueles que condenam os terroristas que mataram em Paris os caricaturistas do Charlie Hebdo mas não aceitam que outros não as publiquem  (e, se pudessem, talvez os obrigassem a publicá-las)?

Serão “Charlie” aqueles que, se pudessem, teriam impedido  alguns  líderes que estiveram na manifestação de Paris porque nos seus países não há liberdade de expressão?

A discussão sobre a liberdade de expressão e dos seus limites não é de agora mas continua actual. Alguns casos de um passado recente ajudam a perceber que a questão não é tão simples como alguns pretendem fazer crer.

Recorde-se a emissão da série satírica britânica Brass Eye, emitida pelo Channel 4 em 2001, dedicada à pedofilia, que causou a maior polémica de sempre no Reino Unido sobre um programa de televisão. A entrevista do autor, Chris Morris, publicada dois anos após o fim da série, é um documento importante sobre o humor e a sátira.

“Ser Charlie” também é analisar criticamente o Charlie Hebdo.

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Uma resposta a O que é, afinal, “ser Charlie”?

  1. A liberdade como a vivemos na UE tem (felizmente) algumas nuances para os anglosaxonicos. O Saviano tem há varios anos apoio policial e ninguem sugeriu que deixasse de investigar e escrever. Mas o Holandinho é “curioso” ao mesmo tempo que manda um portavioes prende um humorista por delito de expressão(felizmente nâo é presidente aqui)

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