Borgen: uma representação realista e crítica do funcionamento da política e da sua relação com os media

No reino da Dinamarca as coisas não são, afinal, assim tão diferentes. Borgen, a série dinamarquesa que está a ser emitida pela RTP2, mostra que lá, como cá e em toda a Europa, a política e os media têm os mesmos códigos, os mesmos tiques, as mesmas qualidades e os mesmos defeitos. Borgen RTP2

A primeira-ministra e o seu spin-doctor,  figuras centrais do enredo, juntamente com a jornalista-pivô da TV1,  movem-se num universo que nos é familiar, muito embora num nível menos sofisticado e muito menos profissional.

Borgen é uma série de grande qualidade técnica e estética mas é sobretudo uma representação  realista e crítica do funcionamento da política e da sua relação com os media, em particular com a televisão. Ao longo dos vários episódios vamos assistindo às dificuldades de um governo de coligação, em que a chefe do executivo se vê na necessidade de negociar permanentemente com os parceiros, impondo, nuns casos, a sua vontade, cedendo noutros, sempre partilhando com o seu spin-doctor, um profissional da “gestão” da informação, a mediatização de cada decisão – uma entrevista “oferecida” ao canal de televisão onde a pivô principal do canal é uma sua amiga e ex-namorada; os termos de um comunicado a “passar” aos media; a escolha dos ministros que irão falar numa conferência de imprensa.

Não faltam em Borgen as “estórias” pessoais de cada um dos protagonistas, paralelas às suas vidas públicas: as dificuldades familiares da primeira-ministra com um marido excepcional mas cansado de estar só; os filhos que só vêem a mãe pela televisão porque chega a casa tarde e a más horas; o drama familiar do spin-doctor vítima de um pai (veladamente pedófilo); a jornalista-pivô que se apaixonou pelo assessor do anterior chefe do executivo, que era casado e  morreu de ataque cardíaco após uma noite de amor.

O pulsar da redacção do canal de televisão na hora do telejornal é apreendido através de diálogos curtos mas  ricos sobre o poder do director, a rebeldia da jornalista-pivô, as rivalidades entre jornalistas e o respeito pelos papéis de cada um – o que apresenta, o que investiga, o que dirige a emissão e escolhe  os planos na régie.

A RTP não promoveu suficientemente a sua série. Teria valido a pena acompanhá-la de debates, quiçá, no canal de maior audiência. É uma série que representa bem o que o serviço público pode fazer: transmiti-la, desde logo, como fez, mas (porque não?) inspirar-se nela para a produção de uma série nacional sobre idêntica temática.

Borgen dirige-se a  todos os que se interessam pelo funcionamento dos poderes que comandam as nossas sociedades.

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Uma resposta a Borgen: uma representação realista e crítica do funcionamento da política e da sua relação com os media

  1. Infelizmente para nós, na Dinamarca a forma como os cidadãos exercem os seus direitos e cumprem as suas obrigações é muito diferente de cá. Como é diferente a forma como se comportam os políticos e como atuam os governos, normalmente de coligação, como muito bem aponta. É que, ao contrário dos portugueses, os dinamarqueses gostam do poder distribuído para que haja um verdadeiro controlo da atividade política. Além disso, lá os tribunais funcionam mesmo…

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