Sócrates e as “virgens púdicas” do jornalismo

JN Camões contra CM 19 Jan 2015O advogado de José Sócrates foi à SIC e voltou a dar “baile” ao entrevistador. O tema é o incontornável editorial de Afonso Camões no Jornal de Notícias desta segunda-feira. O caso conta-se em duas palavras:

Afonso Camões, actual director do Jornal de Notícias (JN) foi escutado a falar com Sócrates, de quem é amigo,  em Maio de 2014, informando-o de que estava a ser investigado e na iminência de ser preso. A notícia é do Correio da Manhã (CM). As escutas (sempre elas, se não houvesse telefones os procuradores e o juiz de instrução só prendiam alguém em flagrante delito) dizem também que Sócrates influenciou a nomeação de Camões para director do JN e que se ofereceu para angariar apoios financeiros para o grupo Controlinveste, hoje dirigido por Proença de Carvalho (ex-advogado de Sócrates) que, por seu turno, teria pressionado o presidente da ERC, chamando-o ao seu escritório para que aprovasse as queixas que Sócrates  moveu contra o Correio da Manhã por notícias sobre a sua vida privada em Paris.

Tanto bastou para que algumas virgens púdicas do jornalismo se mostrassem escandalizadas porque, no fundo, acham que ser amigo de Sócrates é crime. Elas, as “virgens púdicas”, nunca foram nem são amigas de políticos, de banqueiros, de empresários, de procuradores, de juízes. etc.. (como se vê todos os dias com as fugas para o CM, i e  SOL e se viu no caso BES, em que o banqueiro dono disto tudo convidava os  jornalistas amigos  para ricos passeios). Aliás, já quando o novo director da TVI, Sérgio Figueiredo, escreveu um artigo dizendo que é amigo de Sócrates houve quem lhe caísse em cima e visse na sua nomeação para a TVI uma conspiração pró-Sócrates. As “virgens púdicas” do jornalismo não são amigas do poder, são amigas dos trabalhadores, não dos patrões. Almoçam, jantam e viajam com calceteiros, alfaiates, empregados do comércio, quiçá, sem abrigo. Só falta às “virgens púdicas do jornalismo”  dizerem que não conhecem, nunca viram nem sabem quem é José Sócrates!

As “virgens púdicas” do jornalismo que chegam a cargos importantes dentro ou fora de jornais, rádios e televisões, acham que os mereceram só pelo seu valor facial, nunca porque alguém deu “uma palavrinha” e os recomendou a quem os podia nomear. E  nunca telefonaram a um político seja primeiro-ministro, ministro ou presidente da república, para lhe darem uma informação (que não publicaram, mas sabiam). E acham que um grupo privado não pode nomear quem quer para director de um órgão de comunicação social do seu grupo, nem pode receber um conselho ou uma recomendação de um amigo que foi primeiro-ministro.

Esta conversa sobre os atentados-de-Sócrates-contra-o estado-de-direito e controle da comunicação social é boa para despistar o que é relatado no editorial de Afonso Camões no JN de hoje. Diz Camões que a informação que deu a Sócrates  lhe foi dada por um jornalista do CM, que a recebera de um colega do mesmo jornal vinda da equipa do procurador e do juiz de instrução do processo Sócrates. Ora, essa notícia não foi na altura  publicada pelo Correio da Manhã, o que é estranho tratando-se de uma “bomba”. Só pode concluir-se, confirmando o que é claro para todos, que  o procurador Teixeira e o juiz Alexandre têm uma relação de cumplicidade e confiança com o Correio da Manhã,  claramente violadora da independência da justiça.

Perante o editorial de Afonso Camões,  a Procuradoria-Geral divulgou um comunicado onde ignora a afirmação de Camões sobre a origem da informação que deu a José Sócrates, de ele estar a ser investigado e ir ser detido .

Como diria o outro… esta história ainda agora começou…

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14 respostas a Sócrates e as “virgens púdicas” do jornalismo

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  3. Maria diz:

    O problema é a raqzão porque Afonso Camões não diz claramente que, ao transmitir-lhe que o Sócrates ia ser detido, o Ministério Público estava a armar uma ratoeira.
    Todos se recusam a por a questão nesses moldes.
    Por que razão o MP ia avisar o amigo do Sócrates?
    Para poder depois dizer que o Sócrates já sabia.
    E o Afonso Camões sabe-o bem.

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  5. Brick Bradford diz:

    «a Procuradoria-Geral divulgou um comunicado onde ignora a afirmação de Camões sobre a origem da informação»…pqp as meias verdades…parece que o digno camões só referiu a origem da noticia no seu editorial, mesmo assim sem referir nomes (para não ferir virgindades?); à PGR disse nada…

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  7. PB diz:

    Púdicas, não conheço tal palavra… deve haver engano…

  8. caro “Anónimo por direito” (que raio de pseudónimo, sugere a pergunta “Anónimo por direito ou por…?”). Bom, vamos ao seu comentário.
    A amizade entre políticos e jornalistas não é crime nem é defeito. Já a promiscuidade, não sendo crime é contra a ética jornalística. Contudo, essa promiscuidade é frequente e não é apenas em Portugal. Muitas notícias resultam dessa promiscuidade que abrange também a justiça e o poder económico. Muitas vezes é usada por jornalistas no exercício da funções para beneficiar ou para proteger determinadas “fontes amigas”. Isso é tão condenável como um jornalista usar fontes amigas para perseguir ou prejudicar terceiros (políticos ou outros) por quem nutre animosidade (“ódios de estimação”) Isso é mais grave do que oo que se passou com Afonso Camões que, ao que ele diz, se passou em 2004 data em que ele não exercia funções jornalísticas. O jornalismo português está cheio de casos de relações promíscuas entre jornalistas e representantes dos poderes. Se o senhor Anónimo é jornalista deve saber do que falo.

  9. Reblogged this on ergo res sunt and commented:
    Bem, curvo-me perante a assertividade e minúcia deste texto da Estrela Serrano, no blogue “Vai e Vem”

  10. “AS VIRGENS PÚDICAS DO JORNALISMO” SÃO COMO UM COLCHÃO MOLAFLEX: VAI DENTRO E REPELE, ASSIM ELES: O BANDULHO (INTELECTUAL) VAI DENTRO, E LOGO RETOMA O CICLO, DENTRO E FORA, DENTRO E FORA.

  11. Anónimo por direito diz:

    Texto extraordinário. Desvia a atenção do essencial, focando-se nas “virgens púdicas do jornalismo” em vez de censurar o comportamento execrável que o “jornalista” que dirige o JN, implicitamente, já veio reconhecer. Como é que se pode passar por cima do facto de um “jornalista” avisar um ex-governante de que está a ser investigado? Ah, era amigo dele, o que não é crime. Ah, tem a seu favor a “technicality” de na altura “não estar jornalista”. No entanto, apesar de não ser crime, parece que ser amigo do 44 tem os seus benefícios (“friends with benefits”): desde a possibilidade de escolher o jornal que se quer dirigir, como neste caso, até dever-lhe “tudo o que se tem” (no caso do Magno da ERC). Passar por cima destas questões é varrer para debaixo do tapete a imundície que se passa nalgum jornalismo português, e que, aliada à falta de qualidade do mesmo, é responsável pelo seu declínio. Querer mudar o foco para as “virgens púdicas” é, no mínimo, desonesto, assim como um desfavor ao jornalismo.

  12. A.M. diz:

    O segundo parágrafo do poste é pornografia pura. Quero dizer, os factos que são reportados.
    A essência é essa, o resto é folclore.
    Os amigos, e amigas, de Sócrates que limpem os queixos com os factos que a este se imputam.
    Ou desmintam as escutas, o que se reporta das escutas…

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