RTP: administração cessante passa de besta a bestial

Foto, Alberto Frias

Foto, Alberto Frias

Alberto da Ponte, o ainda presidente da RTP, obrigou o ministro Poiares Maduro a recuar no braço de Ferro com o Conselho Geral Independente (CGI), aceitando as suas condições para a renúncia, isto é, o reconhecimento de todo o trabalho desenvolvido até esta data, o qual permitiu assegurar durante o seu mandato o cumprimento das obrigações de serviço público, sempre em respeito da lei, do Contrato de Concessão e da estratégia definida no Plano de Desenvolvimento e Redimensionamento: Plano Reestruturação RTP (2013-2015)”. “Em particular, o Governo agradece a boa gestão levada a cabo pelo Conselho de Administração que contribuiu para os bons resultados económicos e financeiros alcançados pela empresa em 2013 e reforçados nas previsões para 2014”,

Fez bem o ministro Poiares Maduro ao recuar evitando prolongar um conflito que estava desenhado à partida e que foi conduzido da pior maneira com  achincalhamento da administração na praça pública. Para o CGI foi  uma “entrada de leão e saída de sendeiro”. Por outras palavras, a administração demissionária passou de besta a bestial.

Vai agora seguir-se a concretização efectiva do novo modelo. A nomeação da nova administração, independentemente da qualidade das pessoas escolhidas, nomeadamente do administrador para os conteúdos, Nuno Artur Silva, cujo conhecimento e experiência do meio audiovisual é reconhecida, não seguiu os melhores critérios de transparência, por falta de tempo, como reconheceu o presidente do CGI em entrevista à RTP Informação. Um concurso público com apresentação do plano estratégico teria sido uma opção que garantiria melhor a independência da futura administração face ao próprio CGI. De facto, uma administração escolhida pelo órgão que depois vai supervisionar o seu trabalho aproxima-se de algo como conflito de interesses.

As linhas gerais definidas pelo CGI com base  nas quais as pessoas indigitadas para a administração irão apresentar o plano estratégico, contêm  ideias e iniciativas adequadas a uma televisão pública. Aliás, os problemas da RTP nunca foram a falta de boas ideias. Basta ler os contratos de concessão, o actual e os anteriores, para verificar que se trata de documentos substantivos, inspirados em modelos europeus que contudo não evitaram as crises que periodicamente afectam a RTP.

Por outro lado, a alegada “desgovernamentalização” da RTP não se resolve com a criação do CGI, uma vez que nem este nem a  administração podem interferir nos conteúdos jornalísticos, matéria que cabe aos directores e aos profissionais, pelo que só estes podem garantir essa “desgovernamentalização”. Sobre os conteúdos “não informativos”, estão há muito identificadas as principais lacunas da programação. Basta ler os relatórios de regulação da ERC, exercício que seria útil ao CGI e à futura administração.

A entrevista do presidente do CGI à RTP Informação deixa perceber algumas indefinições da nova estratégia, por exemplo, como compatibilizar a necessária manutenção da publicidade no canal 1 com programas que levem a RTP a perder audiências (hipótese admitida pelo presidente da CGI) ou como aumentar a qualidade (seja o que for que se entenda por isso) com a redução do financiamento e como se avaliará a dita qualidade. Também a possibilidade aventada pelo presidente do CGI, de a RTP ceder às privadas as transmissões desportivas que já contratualizou  e cuja relação custo-benefício lhe são claramente favoráveis contém um potencial de conflito no seio da própria empresa que não será fácil de resolver. Que objectivos serão traçados à futura administração (o presidente do CGI recusou falar em níveis de audiência), de que meios e com que critérios vai o CGI  supervisionar e fiscalizar o cumprimento do projeto estratégico por parte da administração e do contrato de concessão do serviço público, esta última competência também atribuída legalmente ao conselho de opinião e à ERC.

A gestão do pessoal  é outra vertente problemática da televisão pública, talvez aquela que nenhuma administração percebeu ou foi capaz de resolver. Não se resolve com convites para rescisões e reformas antecipadas, porque saem os melhores ou aqueles com maiores possibilidades de saída no mercado, muito menos com despedimentos colectivos.  A RTP tem profissionais mal aproveitados, não investe na formação para conteúdos, não implementou processos de avaliação de qualidade e não motiva as pessoas.

Outro desafio a vencer é a defesa da “marca” RTP, prejudicada pelas últimas crises provocadas pela incerteza quanto ao seu modelo institucional.

O novo conselho de administração vai ter de lidar com tudo isto, para além de responder a uma”dupla” tutela: o governo, accionista único, que lhe aprova os orçamentos, e o CGI que dificilmente conseguirá não invadir competências de outros órgãos, entre os quais o próprio conselho de administração e também o conselho de opinião, dada a fluidez das fronteiras que os separam.

É urgente conferir estabilidade à empresa, sem saltos no escuro nem atitudes voluntaristas. Os portugueses merecem uma televisão pública que se respeite e os respeite.

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Política, Televisão com as etiquetas . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s