O repórter que “fala”

A polémica em torno desta reportagem de José Rodrigues dos Santos (JRS) sobre as eleições na Grécia, criticada em directo na RTP Informação por José Manuel Pureza, bem como a reacção de JRS  a essas críticas, suscitam-me alguns comentários.

Em primeiro lugar, importa clarificar o conceito de reportagem. Trata-se de um género  considerado o género “nobre” do jornalismo, aquele em que o jornalista revela a capacidade de transmitir a sua visão do acontecimento, dando sobre ele o seu testemunho sem excluir a liberdade estilística e emotiva e sem deixar de ser rigoroso mas permitindo-se alguma subjectividade na sua interpretação.

Um repórter não é um comentador, precisamente porque a reportagem privilegia a função informativa e o comentário a função interpretativa. Nessa diferença reside a separação dos géneros reportagem e comentário. Um jornalista pode, naturalmente, exercer as duas funções. Contudo, para quem o ouve ou lê deve ser claro qual o “estatuto” que o jornalista assume no momento em que reporta ou comenta. É que é diferente a  expectativa do cidadão perante um repórter ou perante um comentador. Do primeiro, espera-se um relato/testemunho de acontecimentos que ocorrem no momento em que são relatados. Do segundo, espera-se  opinião e  interpretação, sempre subjectivas.

No caso das reportagens de JRS na Grécia, a função interpretativa sobrepôs-se quase sempre à função informativa, uma vez que as suas peças a partir de Atenas dizem menos sobre o que está a acontecer do que sobre o que JRS  pensa  que aconteceu no passado e  prevê para o futuro.

JRS baseou os seus comentários em opiniões de fontes que consultou no local e em informação de background do próprio, o que é característica da reportagem. E, tal como sempre acontece, essas fontes são uma escolha pessoal do jornalista, muitas delas confirmando as suas próprias opiniões e interpretações. Não há, neste aspecto nenhuma novidade porque noticiar e reportar envolve fazer escolhas.

A RTP veio em defesa do seu “enviado” a Atenas, elogiando a sua competência e conhecimentos, mas não lhe ficava mal reconhecer que algumas  referências feitas por JRS,  tais como “os gregos inventam mil estratagemas para não pagar impostos”, (…) “a pequena corrupção generalizada na Grécia” (…)  “muitos dos gregos que passam a pé diante da casa do antigo ministro da Defesa – comprada com o dinheiro dos subornos do negócio dos submarinos – são paralíticos, ou melhor, subornaram um médico para obter uma certidão fraudulenta de deficiência que lhes permite receber mais um subsidiozinho” são, não apenas demasiado simplistas, como manifestamente ofensivas para o povo grego pela generalização que contêm. Também a reacção de JRS às críticas de que foi alvo não esteve à altura da sua experiência e da sua condição de ex-director de informação da RTP. A sua frase “Azar, eu falo” faz supôr que outros jornalistas não falam….

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8 respostas a O repórter que “fala”

  1. EGR diz:

    O senhor JRS é um petulante, autoconvencido que é um génio como jornalista e escritor.
    Além disso é obviamente um tipo faccioso com um estilo que me causa irritação até pelo modo quase histérico com lê os textos.
    Então quando põe a usar os dedos para acompanhar os números que lê , ou faz aqueles esgares faciais francamente , a minha rejeição ao sujeito aumenta vertiginosamente.
    E, fico perplexo que o JRS dá aulas numa universidade pois muito gostava de saber quais são os méritos que para tanto o recomendam.
    Mas,claro, que só a mediocridade reinante na RTP explica o palco que lhe dão.

  2. António Russo Dias diz:

    UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS

    No tempo em que os animais falavam
    Um jerico de espantar
    Com um olhito a piscar
    E orelhas que abanavam,

    (Entre estas não havia
    Muita matéria cinzenta)
    Ao ver uma bela jumenta
    Orneou com galhardia:

    “Não gostam do que vos regalo?”
    “Azar, eu falo.”
    Olha enlevado p’rá burra.

    Mas esta, mui desdenhosa,
    Comenta, toda dengosa:
    “Azar, ele zurra.”

    27/1/2015

  3. António diz:

    Já que ele fala a RTP devia aproveitar para mostrar a realidade portuguesa aos contribuintes que a pagam e enviar-lhe à Suíça, Suécia, Dinamarca e afins para falar-nos como a realidade poderia ser se não tivéssemos os mesmos problemas ou se os resolvêssemos de vez…

  4. Manuel Lourenço diz:

    Se calhar não falam mesmo: uns são papagaios à procura de tacho e de carreira, sem opinião propria nem coragem para a ter, e repetem o que acham que vai bem com o politicamente correcto; e outros não falam mesmo – fazem fretes. Ao partido a que pertencem ou, pior ainda, a quem lhes paga com $$ ou promessas. Ou acham que não se nota?

  5. Pingback: Os novos censores | BLASFÉMIAS

  6. Abraham Studebaker diz:

    O senhor escritor há muito que espalhava destas pérolas para quem, fuçando, as procurava. É disto que produz, se não nos interessa o fruto vamos conservar a árvore?

  7. Vicente Silva diz:

    Em tempos que já lá vão, numa viagem de Lisboa para Cape Town, tive que ouvir pacientemente uma jovem jornalista do Der Spiegel designada para fazer uma reportagem sobre o apartheid. De entre as muitas preocupações que a jovem sentia, havia uma que se sobrepunha às restantes e que era a de fazer uma reportagem isenta de preconceitos sobre um sistema político que ela detestava, tendo para isso de se submeter tão só à veracidade dos factos e deixar de fora juízos de valor e conclusões porque, dizia ainda, tal era do foro dos leitores.
    Ora parece-me que é este o cerne da questão e o pomo da discórdia com JRS que levou longe de mais a sua linguagem metafórica, podendo dar-se por feliz por não ter por perto um qualquer “gorila” que compreendesse o português, que lhe pusesse fora de combate um dos olhos que ele tanto gosta de piscar.

  8. pedro_jose diz:

    A generalização tende a afastar o ponto da verdade.
    JRS teria que justificar muito bem aquela escolha de palavras simplista para não cair numa caricatura, mas não me parece que o tenha feito (ou sequer tentado). É, portanto, um insulto a todos os gregos que não são espelhados naquelas afirmações.

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