Jornalismo de fait-divers deixa de lado o essencial

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Ganhou grande visibilidade nas redes sociais e em blogs a troca de acusações entre as deputadas do PS, Ana Gomes e Isabel Moreira, depois do Expresso, no último sábado ter divulgado erros na transcrição das escutas a Paulo Portas no caso submarinos. Por seu turno, o Expresso alimentou desde então a polémica na sua edição electrónica diária.

O caso seria mais um daqueles fait-divers de que os media tanto gostam e embora incomode o PS daí não viria mal ao mundo. O problema é a desfocagem que essa polémica produz relativamente ao essencial da notícia do Expresso, isto é, o facto de num processo com a gravidade e o alcance do processo Submarinos terem sido feitas escutas a um ministro que depois foram deturpadas na transcrição num sentido susceptível de causar ou agravar as  suspeitas em relação a esse ministro, que aliás não é nem foi arguido no processo já arquivado.

O facto de o próprio Expresso ter agora privilegiado a polémica entre as duas deputadas em vez de aprofundar a denúncia que lançou, sobre a existência de erros na transcrição de escutas,  mostra como um assunto da maior gravidade é branqueado e preterido em função de uma “briga” entre  duas deputadas.

Privilegiar a troca de acusações entre as deputadas em vez de discutir a questão que a despoletou – a credibilidade das escutas, quem as faz e  quem as usa – é uma opção discutível se pensarmos no jornalismo como um serviço público empenhado no esclarecimento dos cidadãos sobre um pilar essencial do estado democrático como é o funcionamento da justiça.

Perante a indiferença dos media sobre questões como os  erros detectados pelo Expresso na transcrição de escutas que podem constituir meio de prova para acusação ou absolvição de suspeitos; ou sobre afirmações de um juiz de instrução de que a prisão preventiva de um ex-primeiro-ministro só “peca por defeito”, como bem assinalou Pedro Marques Lopes, é legítimo pensar que ou a justiça intimida os jornalistas levando-os a ignorarem comportamentos inaceitáveis como estes, ou os jornalistas preferem não os aprofundar para não perderem a confiança de fontes que lhes fazem chegar notícias em segredo de justiça que os vão alimentando e entretendo.

É a todos os título lamentável a indiferença ou a incapacidade do jornalismo para escrutinar certas práticas de agentes da justiça de que são exemplo estes dois casos.

 

 

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4 respostas a Jornalismo de fait-divers deixa de lado o essencial

  1. Pingback: Auditoria ao DCIAP: um triste retrato da justiça | VAI E VEM

  2. Alberto Magalhães diz:

    Concordo com quase tudo! Porém, a forma disparatada como duas camaradas se engalfinham também é notícia…e triste espectáculo.

  3. A postura de I.M. tambem consegue tornar muitos assuntos numa barca das loucas e desanima a levar a sério tanta animação.

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