O sub-texto das declarações da senhora procuradora-geral

PGR sobre caso SócratesAs recentes declarações da Procuradora-Geral da República,  se ouvidas com a devida atenção, deixam perceber um sub-texto que passou despercebido. Disse a Procuradora-Geral sobre o processo Sócrates:

Muitas vezes vêem-se publicadas determinadas afirmações  e determinado tipo de factos que em nada correspondem efectivamente aquilo que se passa, se o processo está em segredo de justiça está em segredo de justiça, quando chegar à altura de deixar de estar, deixa de estar e nessa altura terão acesso aos processos e saberão o que se passou e o que não se passou. ” (…) “nós para fazermos o nosso trabalho de forma isenta e ponderada temos que fazer os nossos comentários no sítio próprio”.

Desconstruindo as afirmações da Procuradora-Geral, se os factos que surgem na comunicação social não correspondem ao que se passa, e sendo certo que os jornalistas não inventam factos nem assaltam o tribunal ou a procuradoria e publicam transcrições de escutas telefónicas e partes do processo em segredo de justiça ,é porque alguém de dentro do processo lhes fornece essas informações.

Ora, se elas “não correspondem ao que se passa”, como diz a Procuradora-Geral,  então alguém anda a enganar os jornalistas e a desviar a sua atenção para coisas falsas e, nesse caso, pode perguntar-se com que intenção o faz.

Há uma explicação possível e verosímil: as fugas de informação que surgem na comunicação social e só podem vir de dentro do processo, funcionam como uma espécie de lebres, não apenas para manter os jornalistas fidelizados e para que as fontes  não percam o controle do que é publicado sobre o processo, como servem para ir preparando a opinião pública num sentido favorável à acusação. Ao mesmo tempo, vão obrigando a defesa a divulgar argumentos que podem ir sendo trabalhados pela acusação.

É um jogo muito pouco limpo e por isso não admira que a Procuradora-Geral aconselhe os magistrados a não responderem às críticas. Cabe-lhe porém, a ela, Procuradora-Geral, explicar as fugas de informação e as razões porque não consegue identificar os seus autores.

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3 respostas a O sub-texto das declarações da senhora procuradora-geral

  1. Antonio Verdades diz:

    Mas estamos num país civilizado? Estamos num paìs onde “uma certa justiça” assiste de cadeirão, ao holocausto de um cidadão, pouco se importando se há ou não há desrespeito pelo segredo de justiça. O importante é queimá-lo vivo. A promiscuidade existente entre “uma certa justiça” e os pasquins não é de agora. É já antiga. E o que faz a PGR perante factos concretos?. Anuncia inquéritos, sabendo que “nunca há culpados” e vamos assistindo a este “pagode” diário que em nada dignnifica a PGR. Antes parece cúmplice.

  2. Sem dúvida. Contudo, para que seja apurada a verdade e feita justiça não pode ser a justiça a viciar o processo, o que acontece com a violação sistemática do segredo de justiça através de uma relação promíscua entre agentes da justiça e josnalistas. Se a justiça pretende condenações na praça pública é porque não está segura de as conseguir em tribunal. Ou, o que é pior, preende influenciar os tribunais.

  3. O possivel desrespeito do segredo de justiça não nos deve desviar do que é realmente importante: saber se um primeiro ministro foi ou não corrupto. Num país civilizado até assusta imaginar que aquele dinheiro todo não caiu das árvores.

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