VAI E VEM

António Costa e os falantes

jornalistas e comentadores desiludidos com António Costa, ou porque não fala sobre as coisas que (lhes) interessam ou porque fala pouco, ou porque não fala mesmo nada.  Mas há também quem diga que com as asneiras do governo lhe basta “fazer-se de morto”.

Não admira que assim pensem aqueles que seguem a actualidade através dos media. É que essa actualidade vive essencialmente de declarações. Declarações de governantes, de dirigentes e ex-dirigentes políticos, de individualidades ligadas ao poder económico e financeiro, desportivo, cultural, etc., etc.. e também de comentadores como Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, cujas declarações alimentam depois  declarações de outros comentadores num círculo vicioso do tipo “cita-me que eu te citarei”.

É uma realidade construída de declarações que se auto-alimentam, saciando egos e aumentando a respectiva quota de visibilidade.

António Costa tem feito o seu percurso de líder do PS um pouco fora deste círculo de falantes, não dando pasto a quem se alimenta de falas. E como ele não produz suficientes falas, os que se alimentam das falas alheias procuram (e encontram) no seio do Partido Socialista quem fale dele ou por ele ou se queixe dele.

António Costa não é um “fala-barato”. Fala quando pretende dizer alguma coisa mas mesmo assim não se livra, por exemplo se critica os fundos estruturais anunciados por Poiares Maduro, de haver logo comentadres a dizerem que o líder da oposição não comenta ministros, só comenta o primeiro-ministro.

E como António Costa não tem assento no Parlamento, ninguém o vê “pegar-se” quinzenalmente com o primeiro-ministro nos debates-embates criados precisamente para a exibição  dos que vivem da fala.

Normalmente, seria até profilático que os espaço público mediático não estivesse tão inundado de declarações dos falantes profissionais. Mas como vivemos numa sociedade em que quem não fala não conta, António Costa vai ter que organizar as suas falas públicas organizando uma agenda de temas e um calendário que permita satisfazer outros falantes.

É que para quem tem como profissão a fala escrita ou oral (os jornalistas)  ou quem as tem como complemento de profissão (os comentadores) é desesperante não ter declarações para comentar. E se não há declarações ou se as declarações versam  sobre assuntos que não contam para os outros falantes então o assunto é “António Costa não diz nada” ou “António Costa não diz nada de jeito”.

Em suma: Fale António Costa, para que outros possam falar de si.