O sub-texto das declarações do Presidente

Cavaco SilvaNos fóruns radiofónicos desta manhã, o Presidente da República está a ser o bombo da festa por causa das suas declarações sobre as dívidas  do primeiro ministro à Segurança Social e ao fisco. Não é caso para menos. Podia ter sido um deslize do Presidente, ou uma “infelicidade“,  mas não foi porque as declarações que fez exprimem uma concepção da ética política, a todos os títulos  preocupante.

Analisem-se essas declarações e o seu sub-texto:

“Tenho muita experiência para distinguir o que são jogadas partidárias e o que são outras matérias.” O Presidente está a dizer que a notícia do Público, o jornal que revelou as dívidas do primeiro-ministro, foi obra da oposição, o que significa, por um lado, que o assunto não tem qualquer importância e, por outro, que o jornal Público foi instrumentalizado e cúmplice de “jogadas partidárias”. É demasiado grave para ser dito pelo Presidente e o próprio jornal deveria reagir. Quanto à invocação da sua  “experiência” para perceber essas “jogadas”, o Presidente  está, implicitamente, a dizer que também as notícias sobre si próprio no caso BPN eram “jogadas partidárias” (e daí a sua “experiência” nestes casos).

“(…) comentar casos [como aquele que envolve o primeiro-ministro] é uma tarefa que cabe aos comentadores políticos. É esse o seu ofício, o seu modo de vida, comentar todo o tipo de polémicas politico-partidárias”. Com esta frase o  Presidente diz, novamente, duas coisas: reafirma a desvalorização das  dívidas do primeiro-ministro e ataca “os comentadores”, afirmando que  têm como “modo de vida”, leia-se são pagos para discutirem, leia-se alimentarem, “jogadas partidárias”. O Presidente deixa em aberto a que comentadores se refere, se aos comentadores-jornalistas se aos comentadores-políticos. O Presidente sugere assim que os comentadores usam os espaços de que dispõem nos media para alimentarem as “jogadas partidárias” e fazem disso  um “modo de vida”. Talvez tenha sido este sub-texto que levou os comentadores do seu partido a unanimemente criticarem as suas declarações.

“Concentrem o seu trabalho na resolução dos problemas do país, no combate ao desemprego, às situações de pobreza, à competitividade da economia”. Com este remate, o Presidente sugere que questões de natureza ética e moral dos governantes e dos candidatos a eleições devem ser ignoradas e o que interessa são as promessas eleitorais (que o Presidente sabe que raramente são cumpridas).

E assim o Presidente mostra que após dez anos no cargo não deixou de ser uma pessoa de vistas curtas e sem capacidade para olhar para o País e para o mundo a partir de um patamar  superior.

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5 respostas a O sub-texto das declarações do Presidente

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  3. J. Madeira diz:

    Pois, o presidente tem experiência daí a tal máxima do terem que nascer
    duas vezes para serem mais honestos do que ele! Foi o caso dos papéis
    da SLN/BPN e, ainda ligado ao mesmo banco esteve a urbanização da
    Quinta da Coelha em que um dos promotores tinha uma dívida de 100
    milhões de euros! Foi a permuta com avaliação muito favorável obrigando
    a um dispêndio de uns poucos milhares de euros de sisa!
    Na sua defesa do p. ministro ignora os aspectos éticos da questão face às
    exigências feitas ao comum dos cidadãos que, acabam por ver os seus bens
    penhorados num àpice! Depois, remata com os “chavões” do desemprego,
    competitividade, passando por cima das análises de organizações internacio-
    nais sobre a situação presente da nossa economia, fruto das excessivas
    medidas austeritárias que sempre foi assinando por baixo! Para esquecer!!!

  4. Qual presidente da república qual quê! O que a ele interessa é que lhe não falte a mama do Estado. Já se deveria ter demitido há muito tempo, porque por aquilo que tem dito no segundo mandato, vê-se que é uma pessoa sem capacidades físicas e morais para continuar a exercer o cargo. Esta é a minha opinião, sendo que o papel dum Presidente da República a sério, e para o ser, deverá ser o primeiro defensor do povo contra o governo que tem sistematicamente violado a Constituição da República e com violação constantes das leis vigentes, coisa essa que não tem feito, por isso o povo cada vez mais estará mais miserável e sujeito à ditadura neo-liberal do governo empossado por ele que aposta no empobrecimento do povo. Apesar de constantemente se auto designar de defensor do povo, não passa de um fanático velho apostado na defesa dum governo que se poderá designar de ladrão e déspota.

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